O feminismo. A história. O direito a sermos vistos/vistas.
“Tu queres é palco.”
“Tu queres é ser vista.”
Há uma acusação que aparece com uma regularidade quase enternecedora sempre que uma mulher fala muito, fala alto, ocupa espaço ou simplesmente não demonstra qualquer intenção de desaparecer depois de ter dito o que tinha a dizer.
Quer aparecer.
No meu caso, aparece praticamente em todos os posts.
E talvez esteja na altura de responder de uma maneira diferente.
E se eu quiser aparecer?
E se eu quiser palco?
E se eu quiser ser vista, ouvida, lida e levada a sério?
Qual é, exatamente, o problema?
Há um palco. Há pessoas a ouvir. Eu tenho alguma coisa para dizer. Se aquilo que digo é fundamentado, se assumo responsabilidade pelo que digo e se considero que aquela mensagem deve entrar na discussão pública, seria bastante estranho escolher deliberadamente o canto da sala onde ninguém me ouve.
Não tenho qualquer interesse em falar baixinho apenas para tornar a minha presença mais confortável para os outros.
E é aqui que esta pequena acusação deixa de ser apenas um comentário desagradável numa rede social.
Porque há qualquer coisa de profundamente interessante na necessidade de dizer a uma mulher que ela quer ser vista.
Vamos então falar de feminismo.
QUEM TEM DIREITO A OCUPAR ESPAÇO?
O feminismo também é uma discussão sobre poder.
E o espaço é uma das formas mais elementares de poder.
Quem fala.
Quem interrompe.
Quem é ouvido.
Quem aparece.
Quem assina.
Quem lidera.
Quem pode dizer “eu sei” sem sentir necessidade de acrescentar três frases de modéstia para tornar a afirmação socialmente aceitável.
Quem pode ambicionar poder sem ter de explicar imediatamente que, na realidade, só quer fazer a diferença.
Quem entra numa sala já percebido como autoridade e quem tem de construir essa autoridade enquanto fala.
Durante muito tempo, as mulheres não tiveram apenas menos acesso ao poder formal. Foram educadas para uma relação diferente com a própria presença.
Não ocupar demasiado espaço.
Não falar demasiado alto.
Não ser demasiado exigente.
Não parecer demasiado segura.
Não mostrar demasiada ambição.
Não chamar demasiado a atenção.
Há sempre um “demasiado” à espera de uma mulher que ultrapassa a dimensão socialmente confortável que lhe foi atribuída.
E isto não desaparece porque hoje temos mulheres em parlamentos, administrações, universidades, empresas, televisão ou redes sociais.
As leis podem mudar mais depressa do que os códigos sociais.
A VISIBILIDADE FEMININA CONTINUA A SER JULGADA
Reparemos na linguagem.
Uma mulher fala: quer aparecer.
Expõe uma posição: quer atenção.
Demonstra conhecimento: acha que sabe tudo.
É assertiva: é arrogante.
Defende uma posição com firmeza: é agressiva.
Mostra ambição: quer protagonismo.
Publica frequentemente: precisa de validação.
É curioso porque, muitas vezes, a crítica deixa de incidir sobre o conteúdo daquilo que foi dito.
Passa a incidir sobre a decisão de falar.
E esta diferença importa.
Dizer a alguém “o teu argumento está errado por estas razões” é debate.
Dizer “tu só estás a dizer isso porque queres aparecer” é outra coisa.
É deslocar a conversa da ideia para a legitimidade de quem a expressa.
Já não discutimos o argumento.
Discutimos se aquela pessoa deveria ter tido a audácia de o colocar no centro da sala.
É um mecanismo extraordinariamente eficaz porque obriga a mulher a abandonar aquilo que estava a discutir para começar a justificar-se.
“Não, eu não quero aparecer.”
“Não, não estou à procura de atenção.”
“Não, não quero protagonismo.”
E talvez seja precisamente esta defesa que devamos deixar de fazer.
Porque aceita a premissa de que querer visibilidade é, por si só, moralmente suspeito.
Não é.
VISIBILIDADE TAMBÉM É PODER
Há uma razão pela qual importa quem aparece.
Aquilo que vemos repetidamente ajuda a construir a nossa perceção sobre quem pertence a determinados lugares.
Quem imaginamos quando pensamos em autoridade.
Quem associamos a conhecimento.
Quem reconhecemos como especialista.
Quem consideramos capaz de liderar.
Quem imaginamos numa administração, numa universidade, numa conferência, num laboratório, num governo ou à frente de uma empresa.
Representação não resolve desigualdade estrutural. Seria ingénuo reduzir feminismo a imagens de mulheres bem-sucedidas.
Mas a invisibilidade também tem consequências.
Se as meninas crescem vendo homens ocupar o espaço público com segurança e mulheres permanentemente aconselhadas a serem mais discretas, aprendem alguma coisa sobre género muito antes de alguém lhes explicar o significado da palavra feminismo.
Aprendem quem fala.
Aprendem quem observa.
Aprendem quem lidera.
Aprendem quem deve pedir licença.
E aprendem também qual é o preço social de uma mulher que não pede.
Por isso não quero ensinar às mulheres que vêm depois de mim que a forma mais aceitável de competência feminina é aquela que quase ninguém vê.
Muito menos quero ensinar isso às meninas.
A AMBIÇÃO FEMININA NÃO PRECISA DE UM PEDIDO DE DESCULPAS
Há outra coisa que me interessa nesta conversa: a nossa dificuldade coletiva com a ambição feminina quando ela é assumida sem decoração.
As mulheres aprenderam a tornar a ambição socialmente palatável.
Queremos crescer, mas “não é pelo cargo”.
Queremos ganhar mais, mas “o dinheiro não é o mais importante”.
Queremos influência, mas “não precisamos de reconhecimento”.
Queremos liderar, mas temos de explicar rapidamente que a nossa liderança será especialmente cuidadora, colaborativa e humana.
Talvez seja.
Mas uma mulher também pode simplesmente querer liderar.
Pode querer poder.
Pode querer influência.
Pode querer reconhecimento.
Pode querer dinheiro.
Pode querer construir alguma coisa grande.
Pode querer que o nome dela esteja associado ao trabalho que fez.
E aquilo que devemos avaliar é o que faz com essa ambição e com esse poder.
Não a mera existência deles.
Porque o problema nunca deveria ser uma mulher querer chegar longe.
O problema começa quando alguém, mulher ou homem, está disposto a destruir outros para lá chegar.
Isso é uma discussão ética.
E é uma discussão muito mais interessante.
FEMINISMO NÃO É DIZER QUE TODA A MULHER TEM RAZÃO
Também convém deixar isto claro.
Ser feminista não significa considerar justa qualquer coisa que uma mulher diga apenas porque foi dita por uma mulher.
Mulheres podem estar erradas.
Podem ser incompetentes.
Podem abusar do poder.
Podem mentir.
Podem discriminar.
Podem exercer péssima liderança.
Podem produzir argumentos intelectualmente frágeis.
E devem poder ser criticadas por tudo isso.
A igualdade inclui também o direito a ser responsabilizada.
O que me interessa é outra coisa: que a crítica seja dirigida ao que fazemos, dizemos e decidimos, e não à nossa falta de docilidade perante a expectativa de invisibilidade.
Se uma mulher apresenta um argumento errado, destrua o argumento.
Se utiliza dados incorretos, corrija os dados.
Se exerce mal o poder, responsabilize-a pelas decisões.
Se existe incoerência entre aquilo que defende e aquilo que pratica, exponha a incoerência.
É assim que uma discussão adulta funciona.
“Tu queres é aparecer” não refuta rigorosamente nada.
QUERER SER OUVIDA NÃO É UMA FALHA DE CARÁTER
Eu quero ser ouvida.
Não tenho qualquer dificuldade em escrevê-lo.
Quero que aquilo que estudo, penso, investigo e construo chegue a pessoas.
Quero participar em discussões públicas.
Quero influenciar a forma como pensamos liderança, gestão de pessoas, inteligência artificial e direitos humanos.
Quero que algumas ideias circulem mais porque acredito que merecem circular.
Naturalmente, quero ser vista.
Seria intelectualmente pouco sério investir tempo a construir pensamento público e fingir indiferença perante a possibilidade de alguém o ler.
A questão relevante não é se quero audiência.
É o que faço com ela.
Uso visibilidade para manipular?
Minto para crescer?
Exploro sofrimento?
Invento conhecimento que não tenho?
Humilho pessoas para conseguir atenção?
Transformo seguidores numa multidão contra quem me incomoda?
Uso poder sem assumir responsabilidade?
Essas perguntas interessam-me.
“Queres aparecer?” interessa-me bastante menos.
O PALCO NÃO É O PROBLEMA
Um palco é apenas um lugar de amplificação.
Pode amplificar pensamento extraordinário e absoluta mediocridade.
Pode servir educação ou propaganda.
Pode dar visibilidade a quem nunca teve voz ou concentrar ainda mais poder em quem já tinha demasiado.
A questão ética nunca foi simplesmente estar no palco.
É aquilo que fazemos quando chegamos lá.
Por isso, da próxima vez que uma mulher falar com demasiada segurança, ocupar demasiado espaço, publicar demasiado, mostrar demasiada ambição ou parecer demasiado confortável com a própria visibilidade, talvez possamos resistir à urgência de lhe explicar que ela “quer aparecer”.
Talvez queira.
Eu quero.
Quero ocupar o meu espaço.
Quero que aquilo que tenho para dizer seja ouvido.
Quero chegar a pessoas.
Quero provocar discussão.
E não vou fingir que desejo o contrário apenas para tornar a minha presença mais aceitável.
Se quiser chamar a isso querer palco, está bem.
Mas então façamos pelo menos uma coisa intelectualmente decente:
não me critique por estar em cima dele.
Suba o olhar e discuta aquilo que eu estou a dizer.


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