Porque é você que precisa de me insultar quando eu não digo aquilo que quer que eu diga?
“Burra.”
“Vaca.”
“Anormal.”
“Vai trabalhar.”
“Devias ter vergonha.”
“Quem te paga?”
“És uma triste.”
Recebo insultos com alguma regularidade quando escrevo sobre política, direitos humanos, liderança ou qualquer outro tema suficientemente capaz de tocar nas convicções de alguém.
Não me surpreende a discordância.
Seria absurdo expor ideias publicamente e esperar concordância.
O que continua a interessar-me é outra coisa.
Porque é que algumas pessoas, perante uma ideia de que discordam, sentem necessidade de deixar de discutir a ideia e começar a diminuir a pessoa?
Eu digo A.
Você acredita profundamente em B.
Tem várias possibilidades.
Pode explicar porque considera A errado. Pode apresentar factos que eu desconheça. Pode desmontar o meu raciocínio. Pode mostrar uma contradição. Pode dizer simplesmente que discorda.
Ou pode chamar-me burra.
É esta última opção que me interessa.
Porque o insulto raramente acrescenta informação ao argumento.
Se eu disser que 2 + 2 = 5 e você responder “és uma idiota”, continua a faltar demonstrar que 2 + 2 = 4.
Pode ter razão sobre a conta e continuar a não ter apresentado um argumento.
Então, para que serve o insulto?
A investigação permite algumas respostas.
E nenhuma delas exige concluir que quem insulta é burro, ignorante, doente ou inferior. Isso seria cometer precisamente o erro que estou a analisar: reduzir uma pessoa a um rótulo em vez de compreender o comportamento.
Um insulto não é simplesmente uma palavra desagradável
Comecemos por distinguir coisas que frequentemente misturamos.
Discordar não é insultar.
Criticar não é insultar.
Ser duro não é necessariamente insultar.
Dizer “o seu argumento é incoerente” é diferente de dizer “você é uma imbecil”.
Dizer “esta decisão foi irresponsável” não é o mesmo que dizer “você é uma atrasada mental”.
Dizer “considero essa posição moralmente inaceitável” não é equivalente a reduzir a pessoa que a defende a lixo humano.
O insulto desloca frequentemente o objeto do conflito.
Já não estamos a discutir aquilo que foi dito.
Estamos a intervir sobre o valor social da pessoa que o disse.
Na investigação sobre incivilidade, encontramos precisamente esta dimensão de linguagem rude ou desrespeitosa destinada a insultar ou diminuir o outro. No debate político, manifesta-se frequentemente através de ataques pessoais, ridicularização, nomes depreciativos e vulgaridade.
Isto ajuda a perceber porque o insulto tem uma função diferente da argumentação.
Um argumento tenta alterar uma conclusão.
O insulto pode tentar alterar uma posição hierárquica.
Eu não demonstro que você está errada.
Coloco-a abaixo de mim.
E depois falo a partir de cima.
Quando uma opinião deixa de ser apenas uma opinião
Há assuntos sobre os quais discordamos sem grande perturbação.
Você prefere praia.
Eu prefiro campo.
Sobrevivemos.
Mas algumas convicções estão ligadas àquilo que consideramos certo e errado, justo e injusto, decente e indecente. Tornam-se convicções morais.
E isso altera profundamente a experiência psicológica da discordância.
A investigação de Linda Skitka e outros investigadores sobre moral conviction mostra que posições vividas como convicções morais tendem a ser percebidas como objetivamente e universalmente verdadeiras. Uma maior convicção moral está associada a menor tolerância perante pessoas com posições diferentes, maior distância social e maior dificuldade em aceitar soluções processuais para resolver determinados conflitos.
Isto é importante.
Quando uma posição política se funde com a nossa identidade moral, quem discorda pode deixar de parecer simplesmente alguém que chegou a outra conclusão.
Pode começar a parecer alguém que ameaça aquilo que somos.
A investigação sobre identidade de grupo mostra precisamente que argumentos provenientes de um grupo adversário podem ser percebidos como ameaçadores quando colocam em causa convicções que definem a identidade do nosso grupo ou sugerem que os nossos valores são errados, inferiores ou moralmente censuráveis.
A discussão muda de natureza.
Já não estou apenas a ouvir:
“Discordo da sua posição.”
Posso estar psicologicamente a receber:
“O seu grupo está errado.”
“Os seus valores estão errados.”
“As pessoas como você estão erradas.”
“Você está errada.”
É aqui que uma conversa sobre impostos, imigração, aborto, religião, racismo, género, direitos LGBT, guerra ou um partido político pode deixar de ser vivida como troca de argumentos e passar a ser sentida como ameaça identitária.
Isso ajuda a explicar a intensidade.
Não justifica o insulto.
Explicar um comportamento nunca foi o mesmo que desculpá-lo.
Porque é mais fácil chamar-me burra do que responder ao argumento
Há ainda uma vantagem funcional no insulto.
É barato.
Construir um argumento exige trabalho cognitivo.
É preciso compreender o que o outro disse, separar premissas de conclusões, procurar evidência, testar a nossa própria posição e aceitar a possibilidade desagradável de descobrirmos uma falha no nosso raciocínio.
“És burra” demora três segundos.
E produz uma coisa que um argumento nem sempre produz: sensação imediata de superioridade.
Ao transformar o adversário em alguém intelectualmente inferior, moralmente defeituoso ou socialmente desprezível, já não preciso de lidar seriamente com aquilo que disse.
A posição deixa de ser:
“Tenho de demonstrar que esta pessoa está errada.”
Passa a ser:
“Uma pessoa destas nem merece ser levada a sério.”
É uma saída extraordinariamente eficiente do desconforto da argumentação.
E tem outra utilidade.
Pode reforçar pertença.
Nas discussões políticas, raramente falamos apenas para a pessoa a quem respondemos. Falamos também para quem está a assistir.
O insulto pode funcionar como sinal para o nosso grupo:
“Eu sei quem são os nossos.”
“Eu sei quem são os outros.”
“Eu estou do lado certo.”
Há investigação sobre comportamentos antissociais online que encontra associações entre cyber-aggression e motivações como entretenimento e recompensa social, bem como uma associação negativa com empatia cognitiva. Isto não significa que todos os insultos tenham estas causas; significa que o comportamento hostil online pode, em determinados contextos, produzir recompensas sociais para quem o pratica.
Quem insulta não está necessariamente a tentar convencer-me.
Pode estar a representar para uma audiência.
E depois pusemos esta psicologia dentro das redes sociais
Agora retiremos duas pessoas de uma sala e coloquemo-las atrás de ecrãs.
A investigação chama online disinhibition effect ao fenómeno pelo qual determinadas características da comunicação digital reduzem constrangimentos comportamentais que existem com maior força presencialmente.
A distância física, a invisibilidade, alguma forma de anonimato, a ausência de resposta imediata e a redução das pistas sociais podem facilitar comportamentos que provavelmente seriam menos frequentes cara a cara.
É extraordinário observar a diferença.
Há pessoas que escrevem a uma desconhecida:
“És uma vaca nojenta.”
Gostaria genuinamente de saber quantas entrariam numa sala, se aproximariam de uma mulher que nunca viram e diriam exatamente a mesma frase olhando-a nos olhos.
Algumas fariam.
Muitas provavelmente não.
O ecrã introduziu distância entre comportamento e consequência.
Não vejo imediatamente a expressão da outra pessoa.
Não assisto ao silêncio que provoquei.
Não sinto fisicamente a alteração da atmosfera da sala.
Não tenho perante mim um corpo humano.
Tenho uma fotografia pequena, um nome e uma caixa onde posso escrever.
Isto não transforma automaticamente pessoas educadas em agressores. Mas pode reduzir algumas das travagens sociais que normalmente regulam o comportamento.
Um estudo recente encontrou uma associação entre dificuldades de regulação emocional e comunicação incivil, mediada por maior desinibição online, mesmo controlando variáveis como personalidade e empatia. Mais uma vez: associação não é destino, nem diagnóstico individual. Mas ajuda-nos a compreender mecanismos.
“É liberdade de expressão”
Chegamos então a uma das frases mais utilizadas depois do insulto:
“Tenho liberdade de expressão.”
Tem.
Eu também.
E convém perceber o que isso significa.
Em Portugal, o artigo 37.º da Constituição protege o direito de exprimir e divulgar livremente o pensamento e proíbe a censura. O mesmo artigo deixa igualmente claro que infrações cometidas no exercício desses direitos continuam submetidas aos princípios gerais do direito e assegura direitos de resposta, retificação e indemnização por danos.
A Convenção Europeia dos Direitos Humanos protege fortemente a liberdade de expressão.
E protege-a precisamente quando ela incomoda.
A jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos repete há décadas um princípio fundamental: a liberdade de expressão não existe apenas para ideias simpáticas, consensuais ou inofensivas. Protege também ideias que ofendem, chocam ou perturbam. Sem isso, não existiria verdadeiro pluralismo.
Portanto, cuidado com outra simplificação frequente:
“Se ofendeu alguém, já não é liberdade de expressão.”
Não.
Uma democracia seria insuportável se cada pessoa tivesse direito a não ser ofendida por ideias.
Eu posso sentir-me profundamente ofendida pela sua posição política.
Você pode sentir-se profundamente ofendido pela minha.
Isso não transforma automaticamente nenhuma delas em expressão ilegítima.
Até linguagem dura, exagerada ou vulgar pode, dependendo do contexto, permanecer protegida. A forma da expressão também faz parte daquilo que o Tribunal Europeu considera ao analisar estes casos.
Mas daqui também não resulta:
“Posso dizer absolutamente tudo porque tenho liberdade de expressão.”
A liberdade de expressão não é absoluta.
A própria Convenção Europeia admite restrições previstas na lei e necessárias numa sociedade democrática, nomeadamente para proteção da reputação ou dos direitos de terceiros. E essas restrições, precisamente porque atingem uma liberdade fundamental, têm de ser justificadas de forma exigente.
Portanto, liberdade de expressão não é um cartão mágico que torna qualquer comportamento imune a consequências jurídicas, sociais ou profissionais.
E há uma distinção ainda mais elementar:
ter o direito de dizer alguma coisa não significa que aquilo que diz seja inteligente, verdadeiro, ético ou útil.
Direito e qualidade moral não são sinónimos.
Eu posso defender o seu direito a dizer uma coisa que considero profundamente estúpida.
É precisamente isso que torna a liberdade de expressão difícil.
A parte que mais me preocupa: transformar o adversário numa pessoa menor
O insulto político torna-se especialmente perigoso quando deixa de atacar comportamentos e começa a retirar características humanas ao grupo adversário.
Burros.
Animais.
Parasitas.
Lixo.
Escumalha.
Doentes.
Sub-humanos.
Traidores.
Há uma razão para a investigação sobre conflito político prestar tanta atenção à desumanização.
Quando deixamos de representar o adversário apenas como alguém que está errado e começamos a representá-lo como menos civilizado, menos racional, menos moral ou menos humano, alteramos a relação psicológica que temos com ele.
Há investigação que mostra processos de desumanização entre grupos políticos e, talvez ainda mais inquietante, que as pessoas podem exagerar quanto o outro grupo as odeia e desumaniza. Num estudo norte-americano com Democratas e Republicanos, ambos os grupos sobrestimaram fortemente a hostilidade e a desumanização que julgavam existir do outro lado; essas perceções estavam associadas a maior distância social e hostilidade política.
Outro conjunto recente de estudos encontrou um fenómeno semelhante: pessoas podem acreditar que os seus adversários políticos aceitam violações morais básicas mais do que realmente aceitam, e essa perceção relaciona-se com maior desumanização e menor disponibilidade para interagir.
Isto cria uma máquina perigosa.
Eu acredito que você me despreza.
Logo, desprezo-o.
Você observa o meu desprezo.
Confirma que eu o desprezo.
Responde com mais hostilidade.
E ambos terminamos com provas do preconceito com que começámos.
Não preciso de o considerar estúpido para considerar a sua ideia perigosa
Aqui quero estabelecer uma fronteira importante.
Civilidade não significa neutralidade moral.
Respeitar a dignidade de uma pessoa não me obriga a respeitar todas as suas ideias.
Há ideias racistas.
Há ideias autoritárias.
Há propostas discriminatórias.
Há mentiras.
Há manipulação.
Há decisões políticas que devem ser contestadas com enorme firmeza.
Há comportamentos que merecem condenação.
Democracia não é uma reunião de condomínio em que todos temos de sorrir para não criar mau ambiente.
Posso escrever que uma ideia é falsa e demonstrá-lo.
Posso considerar uma proposta discriminatória e explicar porquê.
Posso acusar uma decisão de violar direitos, quando tenho fundamento para o fazer.
Posso denunciar hipocrisia, contradição, abuso de poder ou mentira.
Posso ser incómoda.
Posso ser dura.
Posso até ofender profundamente alguém com aquilo que defendo.
O que não preciso é de retirar dignidade à pessoa para ganhar o argumento.
Aliás, a investigação sobre incivilidade política dá-nos boas razões para desconfiar da ideia de que o insulto melhora o debate.
Estudos experimentais encontraram que interlocutores incivis podem ser percebidos como menos credíveis. Outros trabalhos encontraram que a incivilidade diminui o interesse em ouvir o que um político tem para dizer. E uma meta-análise de investigação experimental encontrou um efeito negativo, embora modesto, da incivilidade sobre confiança política, sem um ganho correspondente na participação política.
Podemos estar a fazer muito barulho sem produzir mais democracia.
O insulto também diz alguma coisa sobre poder
Há uma última dimensão que me interessa.
Inferiorizar alguém é uma forma de reorganizar a relação.
Quando lhe retiro inteligência, moralidade, competência ou humanidade, não estou apenas a descrevê-lo.
Estou a reclamar uma posição.
Eu sou racional.
Você é burro.
Eu sou decente.
Você é lixo.
Eu sou esclarecido.
Você é ignorante.
Eu pertenço.
Você devia desaparecer.
É por isso que a linguagem importa tanto.
Porque as palavras não se limitam a transportar argumentos.
Também distribuem estatuto.
Definem quem merece ser ouvido.
Quem merece pertencer.
Quem merece credibilidade.
Quem pode ser ridicularizado.
Quem pode ser tratado como menos.
E quando uma comunidade começa a normalizar sistematicamente essa linguagem sobre determinados grupos, o problema já não é simplesmente falta de educação.
É cultura.
No trabalho, sabemos isto muito bem.
Se numa organização o líder humilha pessoas e todos riem, aprendemos alguma coisa sobre aquela organização.
Se insultar é premiado com atenção, estatuto e aplauso, aprendemos alguma coisa sobre o comportamento que aquele sistema incentiva.
Nas redes sociais acontece o mesmo.
Uma cultura não é aquilo que diz valorizar.
É aquilo que recompensa, permite e normaliza.
Quero que discorde de mim
Quero mesmo.
Quero leitores que encontrem falhas no que escrevo.
Quero que me tragam dados que não conheço.
Quero que questionem as minhas interpretações.
Quero que me obriguem a rever uma conclusão quando a evidência não a sustenta.
Isso é intelectualmente útil.
E democraticamente saudável.
Não quero viver num espaço onde todos dizem que tenho razão.
Seria extraordinariamente confortável.
E intelectualmente miserável.
Mas se a sua resposta à minha ideia for apenas:
“Burra.”
não me demonstrou que estou errada.
Demonstrou apenas que me quis diminuir.
Talvez tenha sentido a sua identidade ameaçada.
Talvez estivesse zangado.
Talvez estivesse a falar para o seu grupo.
Talvez a distância do ecrã tenha retirado travões que teria numa conversa presencial.
Talvez tenha aprendido que agressividade dá atenção.
Talvez simplesmente tenha escolhido insultar.
A ciência ajuda-nos a identificar mecanismos possíveis.
Não nos autoriza a diagnosticar cada desconhecido numa caixa de comentários.
Mas há uma pergunta que podemos fazer a nós próprios sem qualquer laboratório.
Quando alguém diz uma coisa que contraria profundamente aquilo em que acredito, o que faço a seguir?
Procuro perceber?
Contesto?
Argumento?
Trago evidência?
Ou preciso de tornar aquela pessoa mais pequena para conseguir continuar a sentir-me maior?
Essa pergunta interessa-me muito mais do que o insulto.
Porque uma democracia não se mede apenas pela liberdade que temos para falar.
Mede-se também pela capacidade de continuarmos a reconhecer humanidade em quem usa essa mesma liberdade para dizer aquilo que não queremos ouvir.
A sua liberdade de expressão protege a sua discordância.
A minha dignidade não depende da sua concordância.
E nenhum argumento se torna melhor porque conseguimos humilhar a pessoa que está do outro lado.


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