Das pessoas a quem devemos muito – Dona Fernandinha Bessa
A esta pessoa devo o meu amor pela escola, pelas letras, pelos livros e pelas palavras.
Entrei na escola aos 4 anos e nunca mais saí. Tal é o meu amor por aprender.
A pessoa que vêem na fotografia é a Dona Fernandinha. Maria Fernanda Moreira Ribeiro de Bessa. Professora primária. A minha professora primária.
Não foi a primeira.
A minha primeira professora chamava-se Dona Rosalina. Tinha um olho verde e outro azul e era da velha guarda: arreava forte e feio nos miúdos. De cana, de régua, de tudo.
Aprendi a ler sozinha com os desenhos animados do Vasco Granja. A minha mãe trabalhava na Escola Primária de Boim e matriculou-me aos 4 anos. Nesse primeiro ano, a minha turma apanhou a Dona Rosalina.
Eu calava-me como um rato. A minha mãe ainda podia pensar que eu fazia asneiras e que a professora me batia com razão, por isso nunca me queixava. Mas os outros meninos e meninas queixavam-se. E ela foi convidada a sair no final desse ano.
Numa reunião de pais, à frente de toda a gente, decretou o meu futuro:
— A vossa filha nunca vai dar em nada na vida. Muito distraída e faladora. No máximo dos máximos, dará em professora.
E, orgulhosamente, dei.
Professora.
Também jurista, licenciada em Psicologia, gestora de Recursos Humanos, escritora, animadora de rádio, Chef de Cozinha do Mundo e muitas outras coisas.
Mas professora também.
A minha mãe, cada vez que eu acabava uma licenciatura ou um mestrado, ria-se:
— Não dás em nada mesmo. Só professora.
No ano seguinte chegou o paraíso das palavras: a Dona Fernandinha.
Ensinou-me que as palavras são mágicas. Que mudam a nossa vida, as nossas emoções e a vida dos outros. Que ler era uma das coisas mais bonitas que alguém podia fazer para viver melhor.
Que não fazia mal ajudar a colega do lado a fazer o ditado ao mesmo tempo que fazia o meu. Que não fazia mal errar no quadro. Porque também aprendíamos a rir juntos.
Tinha metro e meio de altura e a força das torrentes e das cascatas que nos mostrava nos livros ilustrados. Levava tudo à frente.
Apoiava-me em tudo. Até nas desgraceiras de quem estava a aprender a escrever.
E ensinou-me uma coisa que nunca esqueci: se queremos que as pessoas escrevam melhor, temos de lhes dar bons professores e vontade de aprender. E isso não se vende nas lojas.
A Dona Fernandinha faleceu ontem, aos 85 anos.
Há dois meses estive em casa dela para lhe apresentar o meu filho.
Disse-me que eu era um dos maiores casos de sucesso da sua vida como professora. Que via em mim um bocadinho dela. E que, lembrando-se de todos os alunos que teve, eu devia levar aquele elogio muito a sério.
E eu, que nunca soube receber elogios, comovi-me e chorei.
A minha mãe era uma das melhores amigas dela.
Agora estão juntas.
Dona Fernandinha, vou continuar a dar vida às palavras em todo o lado onde conseguir e enquanto puder.
Porque as palavras são como as torrentes, os rios e as nascentes.
Lavam a alma.
E educam a vida.


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