Vasco Pereira Coutinho: existir inteiro quando o mundo preferia que fosses outra pessoa
Liga dos Incríveis #2 | Vasco Pereira Coutinho
A anatomia da diferença num país que ainda tem medo dela
Há entrevistas que entretêm. Outras informam. E depois há aquelas que, sem o pretenderem, acabam por dizer mais sobre um país do que sobre a pessoa que está sentada diante das câmaras.
Foi isso que senti ao ouvir Vasco Pereira Coutinho falar da sua infância.
Aquilo que começou como um testemunho pessoal transformou-se, para mim, num retrato silencioso de uma realidade que continua demasiado presente. Não apenas a história de um rapaz que sofreu bullying, mas a história de uma sociedade que ainda reage à diferença como se ela fosse uma ameaça.
Temos o hábito de falar de bullying como se fosse uma inevitabilidade da infância. Uma espécie de ritual de crescimento que todos atravessam e do qual, supostamente, se sai mais forte.
Nunca acreditei nisso.
O bullying não é uma fase. É uma forma de violência. E, muitas vezes, é a primeira linguagem através da qual uma comunidade ensina quem pertence e quem deve aprender a sentir-se deslocado.
A sociologia da infância mostra-nos isso há muito tempo: as crianças não inventam os mecanismos de exclusão. Aprendem-nos. Reproduzem-nos. Refinam-nos.
Quando alguém é percebido como diferente, o grupo reage. Às vezes através do riso. Outras vezes através do silêncio. Muitas vezes através da humilhação.
A forma muda.
A lógica permanece.
Há uma frase de Vasco que ficou comigo.
“Eu era o único.”
É uma frase pequena. Mas contém um universo inteiro.
Não descreve apenas uma memória de infância. Descreve um lugar psicológico muito particular: o de crescer com a sensação de que tudo em nós está permanentemente a ser observado, avaliado ou corrigido.
Quem vive assim aprende cedo uma competência que ninguém deveria precisar de desenvolver: vigiar-se a si próprio.
Como falo.
Como ando.
Como gesto.
Como rio.
Como ocupo espaço.
A psicologia conhece bem este fenómeno. Sabemos hoje que crescer sob o peso constante da diferença percebida produz um desgaste invisível, mas profundo. Não é apenas sofrimento. É um estado permanente de alerta. Um corpo que aprende demasiado cedo que o mundo pode deixar de ser seguro.
Talvez seja por isso que a história de Vasco ultrapassa a sua biografia.
Ela fala de todos os que cresceram convencidos de que havia qualquer coisa de errado em si próprios apenas porque não correspondiam ao modelo dominante.
Gostamos de pensar que Portugal é um país tolerante. E, em muitos aspectos, tornou-se um país melhor.
Mas as leis mudam mais depressa do que as culturas.
Ainda hoje sabemos que milhares de crianças e adolescentes continuam a ser alvo de violência por causa da sua orientação sexual, da expressão de género, da forma como falam, vestem ou simplesmente existem.
A diferença nunca desapareceu.
Aquilo que mudou foi a forma como aprendemos a escondê-la.
Foi também por isso que me impressionou ouvir Vasco falar, com tanta serenidade, do momento em que a sua saúde mental vacilou.
Há uma enorme coragem em reconhecer que houve um tempo em que a própria mente deixou de parecer um lugar seguro.
E há uma coragem ainda maior em dizer, sem vergonha, que pediu ajuda.
Durante demasiado tempo ensinámos os homens a suportar tudo em silêncio. Como se a força consistisse em resistir sozinho. Como se procurar um psiquiatra, fazer terapia ou aceitar medicação fosse sinal de fracasso.
Sabemos hoje que não é.
É exactamente o contrário.
É um acto de responsabilidade.
Quando figuras públicas falam destes temas sem dramatização nem heroísmo, fazem mais pela saúde mental colectiva do que muitas campanhas institucionais.
Porque normalizam aquilo que nunca deveria ter sido motivo de vergonha.
Há outra coisa que me fascina em Vasco Pereira Coutinho.
É o facto de ser um humorista.
Pode parecer um paradoxo.
Para mim, não é.
O humor raramente nasce da superficialidade. Nasce da observação. Da capacidade de olhar para o comportamento humano com uma precisão quase clínica e encontrar, nas nossas contradições, matéria para rir.
Quem faz rir não vive necessariamente uma vida leve.
Muitas vezes viveu apenas uma vida observada com maior intensidade.
Talvez seja precisamente essa posição — ligeiramente deslocada — que permite ver aquilo que os outros não vêem.
É também por isso que Vasco pertence, para mim, à Liga dos Incríveis.
Não porque seja perfeito.
Não porque tenha sido mais forte do que os outros.
Nem porque tenha atravessado a dor sem ficar marcado por ela.
Mas porque escolheu continuar a existir em público sem permitir que o medo dos outros definisse quem é.
Num tempo em que ainda gastamos demasiada energia a vigiar identidades e demasiado pouca a cuidar de pessoas, essa escolha tem um enorme valor.
Durante muitos anos disseram-lhe que era diferente.
Hoje percebemos que a diferença nunca esteve nele.
Esteve sempre na dificuldade de uma sociedade olhar para alguém sem lhe exigir que fosse igual.


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