As vozes que não se calam: Tânia Graça e a coragem de dizer tudo, com tudo
Liga dos Incríveis #1 | Tânia Graça
Há pessoas que admiramos à distância. Pessoas que nunca conhecemos, com quem nunca partilhámos uma conversa ou um café, mas cuja presença se faz sentir. Como um farol. Não porque iluminem tudo, mas porque ajudam a orientar o caminho.
Foi a pensar nelas que nasceu esta rubrica.
Chama-se Liga dos Incríveis porque acredito que o mundo precisa de pessoas extraordinárias. Não de heróis perfeitos, mas de mulheres e homens que colocam a inteligência, o conhecimento e a coragem ao serviço dos outros. Pessoas que escolhem usar a sua voz para tornar o mundo mais habitável, mais justo, mais consciente.
Esta será uma homenagem em vida. Um reconhecimento público a quem acrescenta sentido ao nosso tempo.
Começo com uma mulher que admiro profundamente: Tânia Graça.
O corpo também é um lugar político
Tânia é psicóloga e sexóloga. Escreve no Público. Dá voz ao podcast Voz de Cama, na Antena 3. Mas aquilo que mais me interessa nela não está no currículo.
Interessa-me a forma como ocupa o espaço público.
Num país onde ainda se fala de sexualidade em surdina — ou aos gritos, mas quase sempre sem rigor —, a Tânia consegue fazer uma coisa rara: trazer conhecimento sem arrogância, ciência sem jargão e humanidade sem sentimentalismo.
É isso que mais admiro.
A sua voz tem firmeza, mas nunca sobranceria. Tem humor, mas nunca banaliza. Tem indignação, mas nunca perde a elegância. Há uma consistência ética na forma como comunica que, para mim, é tão importante como aquilo que diz.
A Tânia não fala de sexo para provocar. Fala porque acredita que o conhecimento transforma vidas.
Traduz investigação. Desmonta mitos. Questiona preconceitos. Dá linguagem ao que durante demasiado tempo foi vergonha, silêncio ou culpa.
E isso continua a ser profundamente revolucionário.
Entre o conhecimento e o cuidado
Não é fácil fazer este trabalho em Portugal.
Não é fácil ser mulher, psicóloga e sexóloga, falar de prazer, consentimento, identidade ou violência sem ser reduzida a caricaturas.
Não é fácil resistir à lógica das redes sociais, onde a polémica vale mais do que a reflexão.
E, ainda assim, a Tânia consegue fazê-lo.
Construiu autoridade não porque fala mais alto, mas porque escuta, estuda e pensa antes de falar. Nunca tenho a sensação de estar perante alguém que quer vencer uma discussão. Tenho a sensação de estar perante alguém que quer que as pessoas compreendam melhor a realidade.
Há uma diferença enorme.
Quando a ouço, não sinto que esteja a ouvir apenas uma opinião. Sinto que estou a ouvir alguém que cruza conhecimento científico, prática clínica e pensamento crítico para devolver às pessoas uma coisa essencial: autonomia.
E talvez seja essa a palavra que melhor define o seu trabalho.
Escolher um lado
Vivemos um tempo estranho.
Um tempo em que direitos adquiridos voltam a ser discutidos como se fossem privilégios. Em que a desinformação circula mais depressa do que a evidência. Em que o conservadorismo se mascara de neutralidade e o preconceito procura legitimidade científica.
Nestes tempos, há quem escolha o silêncio.
A Tânia escolhe a responsabilidade.
Não foge das conversas difíceis. Não evita palavras incómodas. Não abdica do rigor para agradar nem da humanidade para parecer imparcial.
E isso tem um enorme valor.
Precisamos de profissionais que compreendam que falar de sexualidade é também falar de poder, de igualdade, de saúde mental, de liberdade e de dignidade.
Precisamos de pessoas que saibam que a linguagem nunca é neutra e que comunicar também é um acto ético.
Esta Liga é para ti, Tânia
Não conheço a Tânia pessoalmente.
Mas conheço-lhe a consistência. A ética. A forma como escolhe estar no espaço público.
E isso basta para a admirar.
Escrevo este texto não como fã, mas como mulher, psicóloga e cidadã que acredita que devemos reconhecer, em vida, quem torna o debate público mais inteligente e o mundo um lugar um pouco melhor.
A Tânia faz parte da minha Liga dos Incríveis porque representa aquilo que mais valorizo: lucidez, coragem, rigor e serviço.
Num tempo em que tantas vozes competem por atenção, a dela continua a conquistar respeito.
E isso, para mim, é uma forma rara de grandeza.
Obrigada, Tânia.


Deixe um comentário