Anabela Moreira

Os chavões só servem se a história os acompanhar

Economia, memória e a fraude intelectual do anti-socialismo

Quando a simplificação substitui o pensamento

Os chavões têm uma vantagem injusta: simplificam a realidade até ao ponto de a tornarem confortável para quem não quer pensar. Repetem-se sem contexto, dispensam estudo e funcionam como absolvição moral para quem prefere opiniões rápidas a análises sustentadas. O problema é que, quando se separam da história, deixam de ser opinião política e passam a ser propaganda.

Nos últimos anos, ganhou força a narrativa de que o socialismo empurrou Portugal para a pobreza. Não só é falsa, como revela uma relação frágil com os factos, com a memória histórica e com o funcionamento real das economias contemporâneas.

Portugal não começou ontem

Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1986 com uma estrutura produtiva débil, baixos níveis de escolaridade, infraestruturas insuficientes e um Estado social ainda em construção. O país que hoje existe — com Serviço Nacional de Saúde, escola pública universal, ensino superior acessível, sistema de pensões, proteção social e uma redução estrutural da pobreza extrema — não surgiu por acaso nem por mérito exclusivo do mercado.

Foi resultado de decisões políticas continuadas, de investimento público consistente e de uma visão de desenvolvimento assente na ideia de que crescimento económico sem coesão social é crescimento frágil. Negar este percurso não é uma divergência ideológica legítima; é uma recusa em reconhecer a evidência histórica.

O ciclo económico de 2015–2019 e o mito da incompatibilidade

Entre 2015 e 2019, Portugal viveu um ciclo económico que contrariou a lógica austeritária dominante na Europa do pós-crise. Nesse período, o país saiu do Procedimento por Défice Excessivo, reduziu o défice para valores historicamente baixos, aumentou salários e pensões, devolveu rendimentos cortados durante a troika e reforçou prestações sociais, sem comprometer o crescimento económico nem provocar fuga de investimento.

Em 2019, a dívida pública iniciou uma trajetória descendente, demonstrando que responsabilidade orçamental e políticas sociais não são incompatíveis. Pelo contrário: em muitos contextos, reforçam-se mutuamente. Isto não é uma interpretação ideológica. São dados macroeconómicos.

2025 e a ilusão do efeito imediato

Em 2025, Portugal foi distinguido como economia do ano por entidades internacionais. Atribuir esse reconhecimento a decisões tomadas poucos meses antes por um governo de sinal político diferente não é apenas simplista; revela desconhecimento sobre como se constroem resultados económicos sustentados.

As economias não respondem a impulsos imediatos nem a slogans eleitorais. Respondem a ciclos longos, a políticas acumuladas e a escolhas estruturais feitas ao longo de vários anos. Ignorar isto não é liberalismo económico. É negligência intelectual.

A facilidade da mentira e o seu custo histórico

Acreditar em explicações fáceis exige pouco esforço cognitivo, dispensa leitura comparada e evita o confronto com dados que desmentem convicções prévias. A história, porém, mostra repetidamente o custo dessa facilidade: desigualdades normalizadas, exclusões tornadas invisíveis e direitos tratados como privilégios dispensáveis.

Nada disto é abstrato. É recorrente. E é perigoso.

Quando a propaganda se confunde com informação

Vivi nos Estados Unidos aquando da eleição de George W. Bush. Vinda de uma família de direita, formada em Direito e exposta a um ecossistema mediático profundamente manipulador, cheguei a defendê-lo. Tinha 23 anos. Depois vieram o Iraque, Guantánamo, a mentira institucionalizada como política externa e a erosão deliberada de princípios democráticos.

Foi aí que compreendi, de forma definitiva, que informação não é conhecimento e que a propaganda raramente se apresenta como caricatura; surge bem vestida, articulada e moralmente higienizada.

Ser de esquerda como posição ética

Hoje, com mais estudo, mais maturidade crítica e mais ciência, afirmo-o sem hesitação: sou de esquerda. Não por identidade tribal, mas por convicção ética. Sou de esquerda porque acredito na dignidade humana como fundamento político, na igualdade material como condição de liberdade real e na responsabilidade coletiva como expressão de civilização.

Fico tranquila por os meus impostos financiarem subsídios de doença, desemprego ou rendimento social de inserção, porque sei que esses mecanismos existem para garantir o mínimo civilizacional num país que se quer democrático. Mesmo no cenário extremo — alguém viver apenas desses apoios — prefiro isso a uma sociedade que aceita a fome, a doença e a exclusão como danos colaterais aceitáveis.

Isto não é ingenuidade económica. É uma escolha moral consciente.

O mito dos subsídios e a desumanização conveniente

O argumento de que “há pessoas que vivem de subsídios” serve essencialmente para desumanizar e distrair do essencial. Os valores são baixos, temporários e insuficientes para uma vida digna. E, quando falham, não falha o indivíduo: falha o sistema que não conseguiu garantir educação, saúde, integração e igualdade de oportunidades.

A clivagem real não é entre esquerda e direita. É entre quem aceita a exclusão como preço inevitável do mercado e quem acredita que a economia deve servir pessoas concretas.

Patriotismo não é exclusão

Não acredito em separatismos morais nem em hierarquias de dignidade. A minha humanidade é igual à de um brasileiro ou bengali que vive em Portugal. Não acredito em patriotismos histéricos nem em discursos que confundem identidade nacional com medo do outro.

Um país não se protege amputando direitos. Protege-se fortalecendo o contrato social.

Sem memória, a democracia adoece

Sem justiça social, a economia reduz-se a contabilidade.

Sem Estado, o mercado devora.

Sem memória histórica, a democracia fragiliza-se.

Por isso, voto seguro. Por decência, por história e por responsabilidade democrática. O meu Presidente sempre foi Jorge Sampaio, pela ética, pela humanidade e pela coragem serena que nunca precisou de gritar.

Continuo a escolher essa linha porque acredito na igualdade, na equidade e num Estado que protege sem pedir desculpa por existir. Escolho não esquecer.

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