Anabela Reis Moreira

O valor de mercado de saber uma língua/idioma internacional

Alguns dos instrumentos produzidos no seio do Conselho da Europa desempenharam um papel decisivo no ensino das chamadas línguas estrangeiras, promovendo inovações metodológicas e novas abordagens na conceção dos programas de ensino, nomeadamente através do desenvolvimento de uma abordagem comunicativa.

Estes instrumentos facilitaram uma nova forma de comunicar métodos de ensino, mais orientada para a apropriação operacional de línguas desconhecidas. Ao identificarem as necessidades linguísticas dos aprendentes, permitiram também determinar os conhecimentos e as competências necessárias para atingir esse «nível limiar» de comunicação.

O Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (QECR) organiza a proficiência linguística em seis níveis — A1 a C2 —, agrupados em três grandes categorias: Utilizador Básico, Utilizador Independente e Utilizador Proficiente. Estes níveis podem ainda ser subdivididos de acordo com as necessidades de cada contexto. São definidos através de descritores de desempenho («can do descriptors»), que especificam aquilo que um utilizador é capaz de fazer em cada etapa da aprendizagem. Importa referir que estes níveis não surgiram de forma repentina em 2001; resultam de um processo de desenvolvimento iniciado várias décadas antes.

O QECR: um ponto de viragem

A primeira especificação do chamado «nível limiar» foi desenvolvida para a língua inglesa (Threshold Level, 1975), sendo rapidamente seguida pela versão francesa (Un Niveau Seuil, 1976). Estes dois instrumentos serviram de modelo para a elaboração de referenciais equivalentes noutras línguas, adaptados às especificidades linguísticas e culturais de cada uma.

À medida que surgiram novas necessidades de ensino, aprendizagem e certificação, o conceito de nível foi sendo alargado, passando a incluir níveis inferiores e superiores ao nível limiar. Estes desenvolvimentos constituíram uma das bases da atual escala de seis níveis do QECR.

Publicado em 2001, o QECR representou um verdadeiro ponto de viragem, ao criar um referencial comum, flexível e aplicável a diferentes contextos educativos e a todas as línguas.

O documento descreve o processo de aprendizagem de uma língua através de competências e subcompetências, recorrendo a descritores que permitem caracterizar o domínio progressivo de cada uma delas. Uma das suas maiores virtudes reside precisamente no facto de esses descritores terem sido concebidos sem referência a qualquer língua específica, o que lhes confere uma ampla aplicabilidade.

Contudo, para autores de manuais escolares, professores e outros profissionais da educação, a especificação do QECR pode revelar-se demasiado abrangente, precisamente porque não contempla as particularidades de cada língua. Para responder a essa necessidade, foram posteriormente desenvolvidas as Descrições dos Níveis de Referência (Reference Level Descriptions – RLD), que apresentam especificações mais detalhadas para cada língua nacional ou regional e para cada nível do QECR.

O valor de mercado do QECR

Atualmente, dominar uma língua para além da língua materna — no nosso caso, o português — constitui uma vantagem competitiva significativa, sobretudo quando se trata de uma língua global como o inglês. Quanto maior for a proficiência linguística e quanto mais línguas um profissional dominar, maior tende a ser o seu valor no mercado de trabalho.

Enquanto gestora de Recursos Humanos numa organização global, deixo uma recomendação simples: aprendam línguas.

Além de valorizarem o vosso percurso profissional, as línguas abrem portas a novas culturas, ampliam a capacidade de comunicação e desenvolvem competências essenciais para trabalhar num mundo cada vez mais internacional.

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