Anabela Reis Moreira

Economia do Ano? Quando o discurso político se apaixona pela tabela errada

Quando uma boa notícia merece mais perguntas do que aplausos

As boas notícias têm um efeito curioso.

Recebemo-las com muito menos espírito crítico do que as más.

Quando um indicador económico melhora, quando um ranking internacional nos coloca entre os melhores ou quando uma instituição prestigiada reconhece o desempenho de um país, sentimos uma tendência natural para concluir que a realidade confirma a narrativa.

Mas os indicadores não contam histórias.

Somos nós que as construímos.

Recentemente, Portugal foi distinguido pela The Economist como a “Economia do Ano”, num exercício comparativo entre economias desenvolvidas que teve em conta indicadores como a inflação, o crescimento económico, o emprego e o desempenho bolsista.

O reconhecimento é relevante.

Seria intelectualmente desonesto ignorá-lo.

Mas seria igualmente redutor confundir um bom resultado macroeconómico com um retrato completo da realidade.

É precisamente aqui que começa o pensamento crítico.

Um indicador nunca é a realidade

Os indicadores económicos são instrumentos extraordinariamente úteis.

Permitem comparar países.

Identificar tendências.

Avaliar políticas públicas.

Mas têm uma limitação inevitável.

Medem apenas aquilo que foram concebidos para medir.

O crescimento do PIB diz-nos quanto foi produzido.

Não nos diz como essa riqueza foi distribuída.

A evolução do emprego informa-nos sobre a criação de postos de trabalho.

Não esclarece a qualidade desses empregos, a estabilidade contratual ou o poder de compra dos salários.

Uma inflação controlada constitui uma boa notícia.

Mas não elimina, por si só, problemas relacionados com a habitação, o acesso aos serviços públicos ou a pressão sobre os rendimentos das famílias.

Nenhum destes indicadores está errado.

Apenas são incompletos.

A diferença entre informação e narrativa

Quando uma instituição internacional publica um ranking, fornece dados.

Quando um governo comunica esse resultado, constrói inevitavelmente uma narrativa.

É natural que assim seja.

Toda a comunicação institucional procura enquadrar os acontecimentos de forma coerente com a sua visão política.

O problema não está na existência da narrativa.

Está em esquecermo-nos de que ela é apenas uma das possíveis leituras dos mesmos factos.

A literacia crítica começa precisamente aqui.

Na capacidade de distinguir entre o dado e a interpretação.

Entre aquilo que sabemos e aquilo que concluímos.

As perguntas que completam o retrato

Sempre que encontramos um indicador particularmente positivo, talvez devêssemos acrescentar algumas perguntas simples.

O que está realmente a ser medido?

O que ficou de fora?

Quem beneficia deste resultado?

Quem continua invisível nestes números?

Que outras métricas poderiam alterar significativamente a interpretação?

Estas perguntas não diminuem o valor da boa notícia.

Aumentam a qualidade da nossa compreensão.

Liderar também é interpretar dados

Nas organizações acontece exatamente o mesmo.

Os líderes trabalham diariamente com indicadores.

Produtividade.

Absentismo.

Rotação.

Engagement.

Resultados financeiros.

Nenhum destes números é irrelevante.

Mas nenhum substitui a realidade.

Os melhores líderes sabem que os indicadores são pontos de partida para perguntas, não pontos finais da reflexão.

Quando um número parece perfeito, talvez seja precisamente o momento de perguntar o que ainda não estamos a ver.

O verdadeiro desafio

Portugal pode, legitimamente, celebrar um bom desempenho económico.

Mas nenhuma sociedade se mede apenas pela evolução das suas estatísticas macroeconómicas.

Também se mede pela qualidade do trabalho.

Pela confiança nas instituições.

Pela capacidade de acesso à habitação.

Pela sustentabilidade dos serviços públicos.

Pela forma como distribui oportunidades.

E pela possibilidade de transformar crescimento económico em prosperidade partilhada.

A economia responde à pergunta “quanto crescemos?”

A ética obriga-nos a perguntar “quem cresceu connosco?”

É nesta diferença que começa uma liderança verdadeiramente consciente.

Porque pensar criticamente não significa desconfiar de todas as boas notícias.

Significa recusar a tentação de acreditar que uma boa notícia contém, por si só, toda a verdade.


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