Se é apoio, porque é que se parece com uma sanção? Do Estado social ao Estado tutor
Prestação Social Única: quando a pobreza começa a parecer uma pena
Há uma ironia difícil de ignorar na proposta da nova Prestação Social Única.
Em Portugal, a prestação de trabalho a favor da comunidade é uma pena. Não uma prisão, mas uma pena. Um tribunal condena alguém pela prática de um crime e, em determinadas circunstâncias, substitui a pena de prisão pela realização de trabalho útil para a comunidade.
Agora, em nome da reforma da proteção social, o Estado admite que beneficiários da nova Prestação Social Única possam ser chamados a participar em atividades de solidariedade social, prestadas a autarquias, entidades públicas, organizações da economia social ou estruturas de proteção civil.
Não é a mesma coisa, dirão muitos. E juridicamente têm razão.
Uma medida resulta de uma condenação criminal. A outra integra um programa de proteção social.
Mas a questão interessante não é jurídica.
É política.
A aproximação simbólica
Porque, pela primeira vez de forma particularmente evidente, encontramos duas realidades muito distintas — a prática de um crime e a situação de pobreza — aproximadas por um elemento comum: a realização de trabalho para a comunidade como resposta institucional.
A comparação é desconfortável. Precisamente por isso merece ser feita.
Quando uma pessoa condenada realiza trabalho a favor da comunidade, o Estado parte do princípio de que existe uma dívida para com a sociedade.
Quando uma pessoa em situação de pobreza é chamada a realizar atividades de solidariedade social para manter o acesso a uma prestação, qual é exatamente a dívida que está a ser compensada?
A pergunta pode parecer excessiva.
Não é.
O estatuto moral da pobreza
O que está verdadeiramente em causa é a forma como definimos o estatuto moral da pobreza.
Durante décadas, o Estado Social assentou numa ideia relativamente simples: perante determinadas circunstâncias de vulnerabilidade, a comunidade política assegura um mínimo de proteção. Não porque a pessoa tenha merecido esse apoio. Não porque tenha demonstrado virtude. Não porque tenha provado utilidade. Mas porque a dignidade humana não pode depender da condição económica.
A lógica subjacente à PSU parece deslocar parcialmente esse princípio.
O apoio continua a existir, mas passa a ser acompanhado por uma expectativa crescente de contrapartida.
Inscrever-se. Procurar emprego. Frequentar formação. Participar em atividades definidas pelas entidades responsáveis pelo acompanhamento.
A pobreza deixa de ser apenas uma condição económica.
Passa a ser uma condição administrativa sujeita a demonstração contínua de conformidade.
A disciplina como condição
É neste ponto que a proximidade simbólica com a prestação de trabalho a favor da comunidade se torna relevante.
Não porque os beneficiários da PSU sejam tratados como criminosos.
Mas porque o Estado parece cada vez mais confortável em associar o acesso à proteção social a mecanismos tradicionalmente ligados à disciplina comportamental.
A mensagem implícita merece reflexão.
Quem recebe apoio não recebe apenas apoio.
Recebe também um conjunto de obrigações destinadas a demonstrar empenho, disponibilidade e adesão a um percurso considerado desejável.
Naturalmente, o Governo argumenta que pretende promover a integração, incentivar o regresso ao mercado de trabalho e evitar dependências prolongadas do sistema.
São objetivos legítimos.
Mas uma sociedade revela sempre as suas prioridades através das exigências que faz aos seus membros.
E é difícil não notar uma certa assimetria.
Não exigimos trabalho comunitário a quem beneficia de regimes fiscais favoráveis.
Não exigimos atividades de solidariedade social a quem recebe apoios públicos sob outras formas.
Não exigimos demonstrações periódicas de mérito aos beneficiários de múltiplos mecanismos de proteção económica.
Reservamos esse escrutínio para aqueles que têm menos.
A verdadeira discussão
Talvez por isso a discussão sobre a PSU seja mais importante do que parece.
Não estamos apenas a debater uma prestação.
Estamos a discutir se a pobreza continua a ser entendida como uma circunstância que justifica proteção ou se passou a ser encarada como uma condição que exige compensação.
A diferença é enorme.
Porque num caso estamos perante um direito social.
No outro, aproximamo-nos perigosamente da ideia de que quem é pobre deve devolver alguma coisa à sociedade para justificar o auxílio que recebe.
E essa é uma transformação muito mais profunda do que qualquer reforma administrativa.


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