Anabela Reis Moreira

A arquitetura do caos: o Gish Gallop como monopólio retórico na política portuguesa

Observo o debate político português não como quem procura entretenimento, mas como quem procura compreender a qualidade da nossa democracia. E aquilo que vejo preocupa-me.

A qualidade de um sistema democrático depende, antes de mais, da qualidade da informação que nele circula. Quando os fluxos de informação são deliberadamente contaminados, deixa de ser possível discutir ideias; passa a ser apenas possível sobreviver ao ruído.

É isso que vejo acontecer, com frequência crescente, no debate político português.

Existe um nome para esta estratégia: Gish Gallop.

Consiste em inundar o adversário com uma sucessão vertiginosa de afirmações, meias-verdades, imprecisões e falsidades, lançadas num ritmo tão acelerado que se torna impossível responder a todas dentro do tempo disponível. Não procura convencer através da força dos argumentos. Procura vencer pela saturação.

É uma técnica conhecida nos estudos sobre argumentação, desinformação e comunicação política. E, no contexto português, é particularmente visível na forma como o Chega conduz uma parte significativa da sua intervenção pública.

A lógica do soterramento

O Gish Gallop assenta num princípio simples, descrito por Alberto Brandolini: a energia necessária para refutar uma mentira é muito superior à necessária para a produzir.

Inventar um dado demora segundos.

Verificá-lo exige fontes, contexto, comparação e tempo.

Quando um interveniente acumula sucessivamente afirmações falsas ou profundamente distorcidas sobre imigração, criminalidade, prestações sociais ou qualquer outro tema, deixa de estar a debater. Está a criar um cenário em que o contraditório se torna praticamente impossível.

Quem responde enfrenta um dilema inevitável.

Se corrige apenas uma afirmação, deixa as restantes sem resposta.

Se tenta responder a todas, perde profundidade e parece desorganizado.

O resultado não é a vitória de um argumento.

É a vitória do ruído.

Nem todas as formas de manipulação são iguais

Ser intelectualmente rigoroso implica reconhecer que todos os partidos recorrem, em maior ou menor grau, a estratégias de comunicação.

O Partido Socialista e o Partido Social Democrata utilizam frequentemente a ambiguidade, o enquadramento conveniente dos factos ou respostas que evitam compromissos claros.

À esquerda, Bloco de Esquerda e PCP tendem a partir de quadros ideológicos muito estáveis, com argumentos previsíveis, mas geralmente organizados em torno de uma linha de raciocínio consistente.

A Iniciativa Liberal e o Livre privilegiam, muitas vezes, uma linguagem mais técnica ou programática, por vezes distante da experiência quotidiana de muitos cidadãos.

Podemos discordar de todos.

Mas isso não é o mesmo que recorrer sistematicamente ao Gish Gallop.

O que distingue o Chega é precisamente a intensidade com que utiliza esta técnica. A velocidade da sucessão de afirmações, a facilidade com que muda de tema perante uma refutação e a constante produção de novos focos de conflito tornam muito difícil qualquer debate sustentado.

Não se trata apenas de ganhar uma discussão.

Trata-se de impedir que ela exista.

Velocidade, desvio e repetição

Há três elementos que caracterizam esta forma de comunicar.

O primeiro é a velocidade. As afirmações sucedem-se tão rapidamente que o cérebro do ouvinte deixa de conseguir avaliá-las criticamente. Em vez de analisar, limita-se a acompanhar o ritmo.

O segundo é o desvio constante. Quando um dado é desmentido, o discurso muda imediatamente de assunto, normalmente para um tema moralmente mobilizador. A conversa deixa de ser sobre factos e passa a ser sobre indignação.

O terceiro é a repetição.

A repetição cria familiaridade. E aquilo que ouvimos repetidamente tende, muitas vezes, a parecer mais plausível, mesmo quando não corresponde aos factos.

É um fenómeno amplamente estudado pela psicologia cognitiva.

O verdadeiro custo

O maior problema desta estratégia não é apenas político.

É cognitivo.

Uma democracia depende de cidadãos capazes de distinguir argumentos de slogans, evidência de opinião, factos de propaganda.

Quando o espaço público é continuamente ocupado por ruído, instala-se a fadiga.

E quando chega a fadiga, muitos deixam simplesmente de tentar perceber quem tem razão.

Escolhem por identificação emocional.

Por cansaço.

Por ressentimento.

Ou porque perderam a confiança na própria possibilidade de encontrar verdade no debate público.

Esse talvez seja o efeito mais perigoso do Gish Gallop.

Não destrói apenas uma discussão.

Vai corroendo, lentamente, a confiança na própria ideia de que vale a pena discutir.

Nomear para resistir

As estratégias de manipulação tornam-se menos eficazes quando aprendemos a reconhecê-las.

Por isso importa chamar-lhes pelo nome.

Não para silenciar quem pensa de forma diferente, mas para proteger as condições mínimas de um debate democrático sério.

Nenhuma democracia sobrevive muito tempo se aceitar que a quantidade substitua a qualidade, que o volume substitua a evidência ou que a velocidade substitua o pensamento.

Precisamos de recuperar uma cultura de rigor.

Uma cultura onde a palavra tenha consequência.

Onde os factos importem mais do que a performance.

E onde a verdade volte a ter tempo para respirar.

Porque a democracia não vive do ruído.

Vive da capacidade de pensar antes de reagir.

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