A arquitetura do caos: o Gish Gallop como monopólio retórico na política portuguesa
Observo o debate político português não como quem procura entretenimento, mas como quem procura compreender a qualidade da nossa democracia. E aquilo que vejo preocupa-me.
A qualidade de um sistema democrático depende, antes de mais, da qualidade da informação que nele circula. Quando os fluxos de informação são deliberadamente contaminados, deixa de ser possível discutir ideias; passa a ser apenas possível sobreviver ao ruído.
É isso que vejo acontecer, com frequência crescente, no debate político português.
Existe um nome para esta estratégia: Gish Gallop.
Consiste em inundar o adversário com uma sucessão vertiginosa de afirmações, meias-verdades, imprecisões e falsidades, lançadas num ritmo tão acelerado que se torna impossível responder a todas dentro do tempo disponível. Não procura convencer através da força dos argumentos. Procura vencer pela saturação.
É uma técnica conhecida nos estudos sobre argumentação, desinformação e comunicação política. E, no contexto português, é particularmente visível na forma como o Chega conduz uma parte significativa da sua intervenção pública.
A lógica do soterramento
O Gish Gallop assenta num princípio simples, descrito por Alberto Brandolini: a energia necessária para refutar uma mentira é muito superior à necessária para a produzir.
Inventar um dado demora segundos.
Verificá-lo exige fontes, contexto, comparação e tempo.
Quando um interveniente acumula sucessivamente afirmações falsas ou profundamente distorcidas sobre imigração, criminalidade, prestações sociais ou qualquer outro tema, deixa de estar a debater. Está a criar um cenário em que o contraditório se torna praticamente impossível.
Quem responde enfrenta um dilema inevitável.
Se corrige apenas uma afirmação, deixa as restantes sem resposta.
Se tenta responder a todas, perde profundidade e parece desorganizado.
O resultado não é a vitória de um argumento.
É a vitória do ruído.
Nem todas as formas de manipulação são iguais
Ser intelectualmente rigoroso implica reconhecer que todos os partidos recorrem, em maior ou menor grau, a estratégias de comunicação.
O Partido Socialista e o Partido Social Democrata utilizam frequentemente a ambiguidade, o enquadramento conveniente dos factos ou respostas que evitam compromissos claros.
À esquerda, Bloco de Esquerda e PCP tendem a partir de quadros ideológicos muito estáveis, com argumentos previsíveis, mas geralmente organizados em torno de uma linha de raciocínio consistente.
A Iniciativa Liberal e o Livre privilegiam, muitas vezes, uma linguagem mais técnica ou programática, por vezes distante da experiência quotidiana de muitos cidadãos.
Podemos discordar de todos.
Mas isso não é o mesmo que recorrer sistematicamente ao Gish Gallop.
O que distingue o Chega é precisamente a intensidade com que utiliza esta técnica. A velocidade da sucessão de afirmações, a facilidade com que muda de tema perante uma refutação e a constante produção de novos focos de conflito tornam muito difícil qualquer debate sustentado.
Não se trata apenas de ganhar uma discussão.
Trata-se de impedir que ela exista.
Velocidade, desvio e repetição
Há três elementos que caracterizam esta forma de comunicar.
O primeiro é a velocidade. As afirmações sucedem-se tão rapidamente que o cérebro do ouvinte deixa de conseguir avaliá-las criticamente. Em vez de analisar, limita-se a acompanhar o ritmo.
O segundo é o desvio constante. Quando um dado é desmentido, o discurso muda imediatamente de assunto, normalmente para um tema moralmente mobilizador. A conversa deixa de ser sobre factos e passa a ser sobre indignação.
O terceiro é a repetição.
A repetição cria familiaridade. E aquilo que ouvimos repetidamente tende, muitas vezes, a parecer mais plausível, mesmo quando não corresponde aos factos.
É um fenómeno amplamente estudado pela psicologia cognitiva.
O verdadeiro custo
O maior problema desta estratégia não é apenas político.
É cognitivo.
Uma democracia depende de cidadãos capazes de distinguir argumentos de slogans, evidência de opinião, factos de propaganda.
Quando o espaço público é continuamente ocupado por ruído, instala-se a fadiga.
E quando chega a fadiga, muitos deixam simplesmente de tentar perceber quem tem razão.
Escolhem por identificação emocional.
Por cansaço.
Por ressentimento.
Ou porque perderam a confiança na própria possibilidade de encontrar verdade no debate público.
Esse talvez seja o efeito mais perigoso do Gish Gallop.
Não destrói apenas uma discussão.
Vai corroendo, lentamente, a confiança na própria ideia de que vale a pena discutir.
Nomear para resistir
As estratégias de manipulação tornam-se menos eficazes quando aprendemos a reconhecê-las.
Por isso importa chamar-lhes pelo nome.
Não para silenciar quem pensa de forma diferente, mas para proteger as condições mínimas de um debate democrático sério.
Nenhuma democracia sobrevive muito tempo se aceitar que a quantidade substitua a qualidade, que o volume substitua a evidência ou que a velocidade substitua o pensamento.
Precisamos de recuperar uma cultura de rigor.
Uma cultura onde a palavra tenha consequência.
Onde os factos importem mais do que a performance.
E onde a verdade volte a ter tempo para respirar.
Porque a democracia não vive do ruído.
Vive da capacidade de pensar antes de reagir.


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