A depressão não quer ver a liderança, e não é vista… não sangra por fora.
Mas sangra por dentro.
A depressão não chega de cotovelos escoriados nem de cabeças partidas. Não há sangue a correr pela camisola nem pulsos engessados.
A depressão — essa palavra que custa a dizer em voz alta — apresenta-se limpa, funcional, produtiva até. Disfarçada. Muitas vezes, irreconhecível até para quem a sente.
Eu sou psicóloga. Sou psicoterapeuta somática. Trabalho com o corpo, com as memórias que o corpo guarda, com os silêncios que o corpo aprende a engolir.
E mesmo assim…
Mesmo assim, não vi.
Tinha uma pessoa na minha equipa a atravessar uma depressão. Uma top performer. Daquelas que entregam sempre. Que sabem antes de se perguntar. Que iluminam a reunião com uma frase só.
Até deixar de o fazer.
Até começar a tropeçar em coisas simples.
Até o olhar começar a fugir.
E eu, distraída no meu próprio corre-corre de produtividade, de metas, de tudo-o-que-estava-em-cima-da-mesa, só parei quando deixei de reconhecer a fluidez habitual daquela mente.
Foi tarde de mais?
Não.
Mas podia ter sido.
E a pergunta ficou-me a martelar: como é que eu, psicóloga, não vi?
Porque a depressão no trabalho não grita.
Sussurra.
E muitas vezes só sussurra quando já está a rebentar por dentro.
No consultório, sim — com tempo, com espaço, com autorização do corpo e da alma, com a aliança com médicos quando é preciso tratamento combinado — a depressão é tratada.
Mas no trabalho?
No trabalho, a depressão é ignorada, abafada, até premiada — desde que venha embrulhada em produtividade.
Desde que não atrase prazos. Desde que não sangre para fora.
É por isso que escrevo este texto.
Porque precisamos de preparar os líderes para verem.
Para perceberem que nem sempre o problema é competência. Que nem sempre o erro é preguiça. Que nem sempre a ausência é desinteresse.
Às vezes, a pessoa está ali a lutar contra algo invisível. Algo que consome memória, energia, luz interior.
E, sim, fui fazer formação com o Dr. Srini Pillay. Não apenas para saber gerir a depressão no local de trabalho — mas para me saber gerir a mim. Para aprender a ser líder sem desumanizar, sem ignorar o que arde debaixo da superfície do “está tudo bem”.
Para aprender a parar e olhar.
Porque a depressão não quer ver a liderança. Não se sente segura.
E a liderança também não quer ver a depressão. Não sabe o que fazer com ela.
Mas é urgente aprender.
Nem que seja para não voltarmos a falhar.
Nem que seja para que nenhuma dor interna fique a sangrar sozinha enquanto se entrega a tempo.
Nem que seja — simplesmente — porque liderar é, antes de tudo, ver.
Aos líderes, deixo-vos este apelo: formem-se.
Formem-se para reconhecer o que não se vê.
Formem-se para escutar o que não é dito.
Formem-se para não confundir sofrimento com preguiça, tristeza com desmotivação, colapso com falta de compromisso.
Formem-se — não porque é bonito dizer que se cuida das pessoas, mas porque há vidas que dependem da vossa capacidade de ver para lá do desempenho.
Formem-se — porque liderar não é apenas alinhar objetivos, é criar segurança.
Formem-se — porque a depressão no trabalho não é um tema secundário. É uma urgência silenciosa.
E se não souberem por onde começar, comecem por admitir que não sabem.
É aí que começa a verdadeira liderança.


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