Como fazer com que as pessoas se importem de novo.
Há qualquer coisa de profundamente revelador na forma como falamos das organizações. Durante décadas fomos sofisticando as ferramentas de gestão, construindo métricas cada vez mais precisas, dashboards mais completos e indicadores capazes de medir praticamente tudo. Aprendemos a quantificar produtividade, desempenho, rentabilidade, absentismo e engagement. Mas, nesse processo de aperfeiçoamento técnico, fomos perdendo vocabulário para aquilo que continua a ser o elemento mais determinante de qualquer organização: a capacidade de as pessoas se importarem.
Importarem-se com o trabalho que fazem, com quem trabalha ao seu lado, com o impacto das suas decisões e com o propósito daquilo que constroem todos os dias.
Talvez um dos maiores equívocos da gestão contemporânea tenha sido acreditar que o compromisso pode ser produzido por sistemas. Não pode. Os sistemas podem organizar, distribuir, avaliar ou controlar. Mas não conseguem gerar aquilo que faz uma pessoa investir verdadeiramente inteligência, criatividade e energia no seu trabalho.
Esse compromisso nasce da relação que estabelece com a organização e, sobretudo, da forma como é liderada.
Ao longo dos últimos anos habituámo-nos a substituir atenção por eficiência. Delegámos a dimensão humana para departamentos especializados, como se cuidar das pessoas fosse uma competência exclusiva dos Recursos Humanos e não uma responsabilidade de quem lidera. Começámos a falar de talento como ativo, de pessoas como recursos e de cultura como ferramenta de retenção. E depois estranhámos quando tantos profissionais começaram a desligar-se emocionalmente do trabalho.
Não é apenas uma questão de burnout, embora o burnout seja hoje uma realidade incontornável. Também não é falta de resiliência nem ausência de motivação.
É, muitas vezes, a consequência previsível de contextos onde as pessoas sentem que o seu contributo é medido, mas raramente compreendido; onde os resultados são observados ao detalhe, mas o significado do trabalho desapareceu da conversa.
Há uma diferença profunda entre cumprir tarefas e comprometer-se com aquilo que se faz. A primeira pode ser obtida através do controlo. A segunda exige confiança, coerência e sentido de pertença. Exige que alguém sinta que o seu trabalho importa porque também sente que a sua presença importa.
É precisamente aqui que a liderança deixa de ser um exercício operacional para se tornar um exercício ético.
Um líder não cria compromisso exigindo-o. Cria compromisso demonstrando, todos os dias, que as pessoas não são apenas instrumentos para atingir resultados, mas parte integrante da própria razão de existir da organização.
Por isso, quando perguntamos como voltamos a fazer com que as pessoas se importem, talvez estejamos a formular a pergunta errada.
A questão não é como fazer com que elas se importem.
A questão é saber se as organizações continuam, elas próprias, a importar-se.
Importar-se não é uma atitude sentimental nem um luxo reservado a culturas organizacionais idealistas. É uma decisão estratégica porque altera a qualidade das relações, melhora a confiança, fortalece a responsabilidade individual e cria condições para que o desempenho deixe de depender exclusivamente da pressão.
Num tempo em que quase tudo pode ser automatizado, otimizado ou acelerado, talvez a verdadeira vantagem competitiva já não esteja na tecnologia nem nos processos.
Esteja na capacidade, cada vez mais rara, de construir organizações onde as pessoas sintam que continuam a valer mais do que os indicadores que as avaliam.
Porque uma organização pode medir tudo e, ainda assim, falhar no essencial.
O essencial continua a ser aquilo que nenhuma métrica consegue substituir: pessoas que se importam porque trabalham para líderes que começaram por se importar primeiro.


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