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O que as festas populares me ensinaram sobre liderança
Há lugares onde a liderança se aprende sem manuais.
Não acontece numa sala de formação, nem numa conferência sobre gestão.
Acontece, por vezes, numa rua enfeitada com bandeiras coloridas, entre o cheiro da sardinha assada, o som de um bailarico e o entusiasmo de uma comunidade inteira reunida para celebrar.
Sempre gostei de festas populares.
Durante muitos anos vivi-as como quem procura apenas descansar da complexidade do quotidiano. Trabalhava em Recursos Humanos, passava os dias a compreender pessoas, equipas e organizações e, quando chegava o momento da festa, desligava esse olhar. Ia apenas para estar.
Até que, há dois anos, nas festas de São Tomé, em Mira, algo mudou.
Talvez tenha sido o contexto. Vínhamos de uma pandemia que nos ensinara o valor da presença e da proximidade. Talvez tenha sido simplesmente o momento certo.
Pela primeira vez, deixei de olhar apenas para a festa.
Comecei a olhar para tudo o que a tornava possível.
Vi quem montava os palcos antes de chegar o público.
Quem preparava a comida.
Quem assegurava a limpeza.
Quem tratava do som.
Quem organizava horários, resolvia imprevistos, coordenava equipas e permanecia invisível para que todos os outros apenas pudessem desfrutar.
E ocorreu-me uma pergunta que nunca mais me abandonou:
Quantas pessoas trabalham para que eu possa simplesmente viver este momento?
O invisível sustenta sempre o visível
Desde esse dia comecei a fazer a mesma pergunta em muitos outros contextos.
Quem sustenta verdadeiramente o trabalho que realizamos?
Quem resolve problemas antes de eles existirem?
Quem garante que os sistemas funcionam quando ninguém repara neles?
Quem fica depois de todos saírem?
Nas organizações acontece exatamente o mesmo.
Celebramos resultados.
Reconhecemos quem apresenta.
Aplaudimos quem lidera.
Mas esquecemo-nos, demasiadas vezes, de quem torna tudo isso possível.
Toda a organização possui um trabalho invisível.
E é esse trabalho que sustenta o restante.
A ilusão do talento solitário
Vivemos numa época que valoriza profundamente o protagonismo individual.
As redes sociais reforçam a narrativa do sucesso pessoal.
As organizações continuam, muitas vezes, a premiar desempenhos individuais acima da construção coletiva.
Mas a realidade é menos romântica.
Nenhuma equipa funciona apenas pelo talento de uma pessoa.
Nenhum projeto cresce sozinho.
Nenhuma liderança existe sem pessoas dispostas a confiar, colaborar e contribuir.
Aquilo a que chamamos sucesso individual é, quase sempre, o resultado de uma rede de contributos que permanecem invisíveis.
Quanto mais cedo reconhecermos essa realidade, mais maduras se tornam as organizações.
Liderar é reconhecer quem ninguém vê
Talvez seja esta a maior responsabilidade de quem lidera.
Não apenas definir objetivos.
Mas tornar visível aquilo que os outros deixaram de ver.
Reconhecer o esforço discreto.
Valorizar quem raramente ocupa o centro da fotografia.
Criar culturas onde o mérito não depende da visibilidade, mas da contribuição efetiva.
Porque uma organização onde apenas alguns são vistos acaba, inevitavelmente, por deixar muitos de acreditar que vale a pena contribuir.
O que as festas populares nos recordam
As festas populares existem porque centenas de pessoas aceitam desempenhar papéis diferentes.
Há quem cozinhe.
Há quem monte estruturas.
Há quem limpe.
Há quem organize.
Há quem coordene.
Há quem celebre.
Nenhuma destas funções é suficiente por si só.
Todas são indispensáveis em conjunto.
Talvez por isso estes momentos tenham tanto para ensinar às organizações.
Recordam-nos que a comunidade nunca é construída apenas por quem aparece no palco.
É construída, sobretudo, por quem trabalha para que o palco possa existir.
No fim, talvez a liderança seja isto
Hoje continuo a gostar das festas populares.
Mas já não consigo vivê-las da mesma forma.
Quando caminho entre as bancas, continuo a ouvir a música e a sentir o cheiro da sardinha assada.
Continuo a apreciar o encontro, a alegria e a celebração.
Mas agora reparo também nas mãos que tornam tudo aquilo possível.
Talvez a liderança comece precisamente aí.
Na capacidade de reconhecer que quase tudo o que verdadeiramente importa é construído em conjunto.
E que nenhuma comunidade — seja uma família, uma empresa, uma cidade ou um país — se sustenta apenas pelo brilho de alguns.
Sustenta-se pelo trabalho silencioso de muitos.
Talvez seja por isso que gosto tanto das festas populares.
Porque, entre um bailarico e uma conversa à mesa, lembram-nos uma verdade que as organizações, por vezes, esquecem:
ninguém celebra sozinho.


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