Anabela Moreira

Somos a Soma de Todas as Partes

Reflexões de uma festeira sobre o que nos une (ou devia unir)

Estamos prestes a entrar na época das festas populares. Santo António. São João. São Pedro. E depois… as festarolas de aldeia, com cheiro a sardinha assada, fitas coloridas ao vento e o som de um altifalante a anunciar a próxima actuação.

Eu adoro este tipo de festas. Sempre adorei.

Durante muito tempo, ia a essas festas como quem se esquece de si — ou talvez como quem quer esquecer. Trabalhar em Recursos Humanos é, muitas vezes, conhecer o outro por dentro: as dores, os ritmos, as frustrações, as conquistas. E, no entanto, eu ia a eventos e desligava. Desligava o olhar crítico, o pensamento estrutural, o interesse genuíno por quem faz o que. Ia só para usufruir. Só para estar.

Mas houve um momento em que algo se reconfigurou. Foi há dois anos, nas festas de São Tomé, em Mira. Pós-pandemia. Com a memória ainda dorida dos meses de recolhimento e medo. Estava lá, ao ar livre, entre gente. A viver. E pela primeira vez, vi.

Vi as bancas. Os palcos. A logística invisível. A equipa de limpeza. Os técnicos de som. Os cozinheiros e cozinheiras de serviço. Os voluntários. Os trabalhadores pagos a recibo. Os que montam e desmontam. Os que guardam. Os que coordenam. Os que suportam.

E pensei: quantas pessoas trabalham para que eu possa apenas desfrutar?

O que não sabemos uns dos outros

Hoje pergunto-me com mais frequência:

– Qual o dia a dia dos meus colegas?

– Qual a exigência real das suas funções?

– Do que se desligam eles para que o trabalho aconteça?

– O que deixam por fazer para que outros possam fazer?

E também:

– O que está por trás de uma Feira de Março (em Abril) em Aveiro?

– O que envolve o São João no Porto, para lá do fogo-de-artifício?

– Quantas camadas invisíveis tem um Santo António em Lisboa?

Tenho algumas ideias. Mas só ideias. Porque a verdade é que a envergadura de tudo é maior do que conseguimos projectar. E porque há um abismo entre ver e ver de verdade.

O meu dia — e o teu — não é nada sem os outros.

Somos sempre a soma de todas as partes. Mas esquecemo-nos disso.

Em casa. No trabalho. Na humanidade.

Esquecemo-nos que a casa não funciona sem cada gesto mínimo.

Que a família é rede — e não obrigação.

Que nas empresas, ninguém brilha sozinho, por mais que o LinkedIn diga o contrário.

Que nas organizações, o impacto colectivo é sempre feito de micro-esforços individuais.

E que, na humanidade, cada escolha conta.

Quanto mais formos soma — mais humanos nos tornamos.

E quanto mais nos deixarmos embalar pela ilusão do talento solitário, mais quebrados ficamos.

Sim, valorizo profundamente a autonomia, a iniciativa, o brilho próprio.

Mas sei — como quem já viu o avesso da liderança — que a verdadeira força está no trabalho de equipa.

Sempre esteve. Sempre estará.

A falha estrutural chama-se ego

Hoje, mais do que nunca, vejo o quanto estamos a falhar nesse compromisso básico: cooperar.

Estamos péssimos a trabalhar em conjunto.

Cada um para seu lado. Cada um com o seu plano. Cada um com a sua urgência.

E o mundo a desmoronar porque ninguém se atreve a largar o controlo.

É urgente formar mais líderes.

Não chefes. Não gestores do medo.

Líderes de verdade.

Maestros da humanidade. Gente que confia. Gente que escuta. Gente que não desumaniza.

Precisamos de pessoas que saibam ler contextos, reconhecer esforços, criar espaço para que o outro seja.

Que não invisibilizem. Que não descartem. Que não roubem o mérito.

Precisamos de pessoas que inspirem — não pelo poder, mas pela presença.

Pelo que fazem acontecer em conjunto.

Pelo que fazem com.

No fim, talvez seja simples

Voltar a dançar nas festas populares ensinou-me mais sobre liderança e humanidade do que muitos livros.

Porque ali, entre a bifana e o bailarico, há lições de comunidade que o mundo corporativo desaprendeu.

E talvez a grande sabedoria esteja nisso:

Saber que não se trata apenas de ti.

Nunca foi.

Somos sempre a soma de todas as partes.

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