Autocompaixão e compreensão: os únicos caminhos do bem-estar
A autocompaixão não é fraqueza. É uma disciplina de responsabilidade.
Há uma ideia profundamente errada que continua a ser repetida.
A de que sermos exigentes connosco é o caminho para sermos melhores.
Não é.
Na maioria das vezes, é apenas o caminho mais rápido para o desgaste.
Ao longo de mais de vinte anos a trabalhar com líderes, equipas e organizações, vi pessoas extraordinariamente competentes destruírem-se em silêncio. Não porque lhes faltasse talento. Não porque trabalhassem pouco. Mas porque acreditavam que nunca era suficiente.
Vivemos numa cultura que elogia quem aguenta tudo.
Quem trabalha até mais tarde.
Quem responde às mensagens a qualquer hora.
Quem não falha.
Quem nunca abranda.
Chamamos-lhe compromisso.
Muitas vezes, é apenas ausência de compaixão por nós próprios.
E há um preço para isso.
Esse preço não aparece imediatamente nos indicadores da organização. Aparece primeiro no corpo. No sono que desaparece. Na ansiedade que se instala. Na irritabilidade que passa a fazer parte da personalidade. Na dificuldade em decidir. Na perda de criatividade. Na relação com quem mais gostamos.
A exaustão raramente começa por falta de descanso.
Começa pela forma como aprendemos a falar connosco.
O que é, afinal, a autocompaixão?
Autocompaixão não é desculpar tudo.
Não é baixar padrões.
Não é resignação.
É reconhecer, com honestidade, que tomámos decisões com a informação, os recursos, a maturidade e a energia que tínhamos naquele momento.
É deixar de tratar o erro como uma prova de insuficiência pessoal.
É substituir a autocrítica permanente por responsabilidade consciente.
Porque só quem consegue olhar para si sem crueldade consegue corrigir verdadeiramente o que precisa de ser corrigido.
A culpa paralisa.
A compreensão transforma.
A autocompaixão constrói-se em sete práticas.
Não são características de personalidade.
São escolhas repetidas.
Empatia
Começa por escutar.
Escutar os outros, mas também aquilo que o corpo nos tenta dizer há demasiado tempo.
A empatia não é apenas uma competência relacional. É uma forma de interromper o piloto automático.
Coragem
A coragem não é suportar tudo.
É admitir quando precisamos de parar.
É pedir ajuda.
É estabelecer limites.
É tomar decisões difíceis antes que o corpo as tome por nós.
Atenção
Vivemos distraídos.
Distraídos do que sentimos.
Distraídos das pessoas.
Distraídos do impacto das nossas escolhas.
Estar presente é um acto de cuidado.
E cuidar exige presença.
Humildade
Humildade é abandonar a ilusão de que temos de acertar sempre.
É aceitar que aprender implica errar.
Que crescer implica rever convicções.
E que ninguém lidera bem quando acredita que já sabe tudo.
Justiça
Somos, quase sempre, mais severos connosco do que com qualquer outra pessoa.
Exigimos perfeição onde aceitaríamos humanidade nos outros.
A justiça começa quando deixamos de aplicar dois pesos e duas medidas: uma para o mundo e outra para nós.
Respeito
Há relações que terminam.
Há projectos que acabam.
Há ciclos que fecham.
O respeito deve permanecer.
Respeito pelos nossos limites.
Pelo nosso tempo.
Pelo nosso corpo.
Pela história dos outros, mesmo quando é diferente da nossa.
Integridade
É fazer o que está certo quando ninguém está a observar.
Mas também é cuidar de nós quando ninguém nos obriga a fazê-lo.
Porque abandonar-nos também é uma forma de falta de integridade.
O erro nunca será o problema.
Enquanto existirem pessoas, existirão erros.
Porque existirão histórias diferentes.
Educações diferentes.
Valores diferentes.
Expectativas diferentes.
O erro faz parte da condição humana.
O problema começa quando transformamos o erro em identidade.
Quando um erro deixa de ser algo que aconteceu e passa a definir quem acreditamos ser.
É aí que nasce a vergonha.
É aí que desaparece a capacidade de aprender.
O bem-estar não começa no descanso.
Começa na forma como nos tratamos.
Nenhum plano de autocuidado compensa uma voz interior que vive em permanente acusação.
Nenhuma semana de férias corrige anos de autocrítica.
Nenhuma agenda organizada resolve uma relação profundamente violenta connosco próprios.
A autocompaixão não elimina a responsabilidade.
Torna-a possível.
Porque só quem compreende a própria humanidade consegue construir uma vida com mais saúde, relações mais sólidas e uma liderança mais ética.
No fim, talvez seja isso o verdadeiro autocuidado.
Não fazer menos.
Mas deixar de viver permanentemente contra nós próprios.


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