Políticas de Inclusão: porque excluímos pessoas que são diferentes?
Já alguma vez parou para pensar sobre as pessoas que excluímos? Talvez sem intenção, mas com crenças ou comportamentos que perpetuamos. Falo sobre inclusão com alguma hesitação, não porque não acredite nela, mas porque cresci a viver a realidade da exclusão. Sou filha de duas pessoas com deficiências profundas. Os meus pais trabalharam mais e melhor do que muitas das pessoas que conheci ao longo da minha vida profissional, e deixaram um legado incrível a mim e aos meus irmãos.
Mas, como sociedade, tendemos a excluir o que não se encaixa no padrão. Ensinaram-nos que só quem é “normal” é valioso. E é aqui que surge uma das minhas maiores dificuldades: falar sobre inclusão, porque a exclusão sempre foi uma realidade demasiado próxima.
A FALÁCIA DA IGUALDADE TOTAL
Há uma frase que oiço frequentemente e que me incomoda profundamente: “Não sou mais nem menos do que ninguém.” Parece bem-intencionada, mas é uma falácia perigosa. Crescemos com a ideia de que todos devemos ser iguais, uma crença enraizada nos tempos de ditadura, em que ninguém podia destacar-se. Mas a verdade é que não somos todos iguais. E está tudo bem com isso.
Eu, por exemplo, sou mais proficiente em gestão de talento e liderança consciente do que alguém que nunca estudou ou trabalhou nesta área, mesmo que essa pessoa seja um CEO de renome. Por outro lado, esse CEO será muito mais competente do que eu em gestão de operações ou estratégia empresarial.
A igualdade perante a lei e a justiça deveria ser um princípio universal. Mas, na prática, sabemos que as oportunidades não são iguais para todos. E é aqui que entra a necessidade de políticas inclusivas.
TODOS SOMOS DIFERENTES E HUMANOS
Conversava recentemente com uma colega, Sofia Henriques, sobre este tema. Ela partilhou algo que ressoa comigo: no fundo, somos todos humanos. Alguns de nós podem não ter um sentido, podem ser gagos, podem ter limitações físicas ou cognitivas. Mas todos temos também talentos únicos, superpoderes que nos tornam especiais.
Ainda assim, insistimos em definir “normalidade” como um padrão a ser atingido. Mas a normalidade é, na verdade, o padrão mais baixo que uma sociedade pode ter. Ser “normal” é não se destacar, não criar, não inovar. É conformar-se. E isso é exatamente o oposto do que precisamos para construir uma sociedade mais rica e diversa.
DEI: NECESSÁRIO, MAS NÃO SUFICIENTE
As empresas falam cada vez mais sobre Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). São conceitos fundamentais e avanços importantes. Sou uma defensora e ativista destas políticas. Mas, no fundo, não deveríamos precisar delas.
Se cada um de nós baixasse o “padrão” que impomos aos outros – a crença de que só existe uma forma válida de ser e de viver – não precisaríamos de políticas para garantir que as pessoas diferentes são aceites. A inclusão verdadeira começa na forma como olhamos para quem é diferente de nós e na aceitação dessa diferença como parte da riqueza humana.
A DIFERENÇA É A NOSSA FORÇA
A diferença é o que nos torna humanos. Não há nada mais poderoso do que reconhecer que somos todos brilhantes naquilo que nos torna únicos e irrelevantes naquilo que nos torna iguais. Eu sou diferente. Os meus irmãos são diferentes. Os meus pais, na sua singularidade, também eram diferentes.
Cada um de nós tem algo único a oferecer ao mundo. Mas, ao perpetuar a normalidade como um ideal, estamos a limitar o nosso potencial enquanto sociedade. Se derrubarmos o conceito de normalidade, também derrubamos a necessidade de políticas de inclusão.
A IGUALDADE DEVE SER UM PONTO DE PARTIDA, NÃO O FIM
A igualdade perante a lei deve ser um ponto de partida, não o fim da linha. Uma sociedade igualitária não significa que todos sejam iguais, mas sim que todos têm as mesmas oportunidades para brilhar naquilo que os torna especiais.
Políticas de inclusão são ferramentas necessárias porque ainda vivemos num mundo que exclui quem não se encaixa no padrão. Mas o verdadeiro objetivo deve ser criar uma sociedade onde estas políticas já não sejam necessárias, porque aceitamos e valorizamos a diferença naturalmente.
COMO PODEMOS FAZER A DIFERENÇA?
1. Repense os seus padrões: Pergunte-se porque considera algo “normal” e quem fica de fora desse padrão.
2. Valorize o único: Em vez de procurar a semelhança, procure o que torna cada pessoa especial.
3. Promova inclusão no seu círculo: No trabalho, na escola, na comunidade, questione práticas que excluem pessoas diferentes.
4. Seja exemplo: Mostre que a diferença é uma força, partilhando histórias que celebram a diversidade.
UM MUNDO MELHOR COMEÇA EM NÓS
Se quisermos um mundo mais inclusivo, não basta esperar que as empresas e governos implementem políticas de DEI. A mudança começa em cada um de nós, no reconhecimento do valor da diferença e na rejeição da normalidade como padrão.
Quando abraçamos a diferença, descobrimos que o mundo é um lugar mais rico, mais interessante e mais humano. Somos todos únicos e brilhantes. E é apenas nessa diferença que encontramos o verdadeiro significado de sermos humanos.
Boa sexta-feira! Aproveitem a chuva e celebrem a vossa unicidade.


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