Eu não sou normal
Este é um ensaio sobre a dita “normalidade”, que qualquer pessoa, parando dois minutos para pensar mais a fundo, saberá que, tal como eu, não é normal.
Sou gestora de recursos humanos e, felizmente, desde que voltei a trabalhar internacionalmente, não ouço a expressão: “Isto não é normal!”. Não a ouço nem em português nem em inglês. E que bom é.
No entanto, no país que me deu berço, que amo e no qual escolhi viver, ouço-a a cada passo. Ontem ouvi-a de novo e achei-a parva, leviana e muito superficial.
“O normal é ter saúde”, foi o que foi dito. Porque, supostamente, as coisas são sistémicas e esse é o normal.
O normal é estudar e saber mais, digo eu. Ir mais a fundo. Não ficar pelas coisas “quânticas” e “sistémicas”. Coisas não estudadas em profundidade, não validadas cientificamente, não normais, para falar a língua desta senhora.
A minha mãe teve poliomielite em criança. Ficou paralisada desde os dois anos de idade. Por causa dessa paralisia, não anda e tem outros problemas de saúde. A minha mãe, pelos vistos, não é normal porque não tem saúde.
O meu pai é gago. Sempre foi gago. Tem uma gaguez incapacitante, legitimada pela medicina — e convém lembrar que a medicina é uma ciência — que lhe trouxe outros problemas de saúde. O meu pai não é normal. O meu pai não pode normalizar o problema de saúde que tem.
O meu filho, de dois anos, teve de ser reanimado quando nasceu. Tem um pequeno problema cardíaco. O meu filho não é normal. O meu filho não tem saúde. O normal é ter saúde.
Eu tive uma grande infeção, depois de um período com uma doença da qual não quero falar. Essa infeção obrigou, inclusive, à extração de um dente e fez-me perder temporariamente a visão. Eu não sou normal. Porque eu, durante um determinado período, não tive saúde.
Normal é aceitarmos que somos as nossas circunstâncias, as nossas emoções; que as coisas mudam; que os estados emocionais mudam; que a doença nos muda; que a saúde nos muda. Normal é legitimar o nosso bem-estar através de resultados concretos.
As pseudociências existem sem prova factual ou concreta para quem, num fim de semana — forma de dizer —, acha que se tornou terapeuta de alguma coisa. Aprendeu com quem? Cientistas? Faz o quê? Ciência? Isto é normal? Dar consultas de coisas que não são legítimas nem legitimadas?
Eu sou coach. O coaching é uma ferramenta prática que, no meu caso, ligada à Psicologia e ao Direito, me permite obter resultados. Também tenho formação em PNL, que, ligada à Psicologia e ao Direito — duas ciências fortes —, me permite obter resultados.
PNL e coaching são ferramentas. Não são ciências. Não são terapias, independentemente do que diga uma qualquer associação criada para promover a PNL como terapia. Não são. Ainda não são. Acredito que, por exemplo, a PNL possa vir a sê-lo no futuro. Mas ainda não existem provas legítimas e factuais que o permitam afirmar.
A ciência dá trabalho. A ciência implica muito estudo diário, muita experimentação, muita validação. A ciência dá trabalho e as pessoas não têm tempo. Preferem as “energias” e a ideia de que uma qualquer civilização oriental testou algo e fez disso ciência. Constroem fake news e fake facts em proveito próprio. Mas adiante.
Quem definiu o que é “normal”? A quem serve o lobby da “normalidade”?
Às pessoas que não estudam, que, perdoem-me o português, “empinam” umas coisas sem nexo e dizem que o resto não é normal? Como dizia o outro: “estudasses”.
Vou dizer o que é normal.
Normal é a diversidade. Normal é sermos todos diferentes e todos iguais em dignidade e direitos.
Normal é vivermos bem. E, se alguém vive bem tendo uma doença incapacitante, como a minha mãe, isso é normal. Não conheço mulher mais forte, mais trabalhadora e mais capaz do que ela.
Normal é seguir a norma, não viver no caos, estar informado sobre aquilo que se aplica à nossa sociedade e à convivência social, e cumprir.
Normal é gerar movimentos cívicos e mudar a norma quando ela deixa de ser justa ou proporcional.
Normal é estudar e legitimar as coisas através da ciência. A ciência está em constante mudança, e ainda bem.
Normal é rejeitar a pseudociência e tudo o que não apresenta resultados concretos.
Normal é agir dentro da ética e da nossa consciência. Normal é não fazer comentários parvos sobre quem não conhecemos e sobre quem nada sabemos.
Normal é ouvir — ouvir muito — quem sabe e, quando pudermos, “inventar” uma nova roda, inovar; mas, quando não pudermos, seguir a “roda” de quem já a inventou bem e deu provas do seu trabalho e sucesso.
Normal é não ficarmos ressabiados porque alguém triangula mais informação do que nós e nos facilita o conhecimento. O ressabiamento é do ego; compreender é da alma.
Normal é parar para pensar, para sentir e para agir de acordo com aquilo que nos faz bem, porque aquilo que nos faz bem já incorpora as circunstâncias do sistema onde vivemos. Nós somos as nossas circunstâncias.
Se não se sentir bem, o normal é procurar ajuda junto de um profissional especializado e competente, de preferência alguém que seja também cientista e não de uma “cena” superficial qualquer que lhe fale de “energias” e de coisas que depois não consegue explicar de forma fundamentada.
Esta observação foi feita num fórum sério, por uma pessoa muito jovem que muito admiro e que, a meu ver e de acordo com o que tenho estudado, deveria servir de inspiração para muitas pessoas de todas as idades: a Joana Sá, da Girlbosses HUB.
Uma jovem — e tanta gente descredibiliza os jovens, enquanto eu, aos 45 anos, considerada por alguns uma “antiga”, aprendo todos os dias tanto com eles — que é uma estudiosa do marketing e que empodera mulheres através desta ciência para alcançarem a sua liberdade financeira.
E posso garantir que quem cumpre escrupulosamente o método dela alcança, de facto, essa liberdade.
E o que é o marketing?
É uma ciência que triangula inúmeras outras ciências. No mercado complexo em que vivemos, o marketing constitui uma ciência aplicada relativamente recente, que integra áreas como a gestão, a economia, as ciências sociais — através do estudo dos comportamentos e das necessidades do consumidor — e as neurociências. Estuda a significação social dos produtos e é uma das disciplinas mais interdisciplinares da atualidade.
Enquanto ciência, continua a construir o seu corpo teórico, possui um objeto de estudo definido e utiliza metodologias qualitativas e quantitativas.
O marketing vende líderes e também os destrói. É uma das ferramentas de comunicação mais poderosas para promover ou comprometer pessoas, ideias, produtos ou organizações.
Atrevo-me a dizer que quem vende desconhecimento e “empina” opiniões sem fundamento acabará por se destruir, precisamente através do marketing, num curto espaço de tempo.
Ontem partilhei esta reflexão; hoje decidi publicá-la.
Fica o meu agradecimento público à Joana Sá, porque também ela não é normal. Não é normal porque normaliza o facto de uma pessoa poder ter uma doença sem ser reduzida à sua doença. Porque educa as pessoas para deixarem de olhar para os problemas de saúde como um estigma e passarem a vê-los como parte da vida. Porque combate uma sociedade superficial, ainda cheia de preconceitos.
E porque, se tivesse frequentado o curso da Joana há um ano, provavelmente não estaria hoje preocupada com o facto de o meu rendimento ter diminuído 45% durante os dois meses em que estive de baixa.
Em pouco tempo, e sem sequer ter realizado todos os exercícios propostos, ultrapassei as três mil visualizações no meu perfil.
A Joana vende um produto chamado Escola da Liberdade Digital. E vende-o bem. Com dignidade. Com verdade. Com maturidade. Com a frontalidade necessária para dizer que as coisas não caem do céu, que exigem persistência, método e trabalho sistemático.
A Joana não é normal.
Eu não sou normal.
E sabe uma coisa? Você, que me está a ler, também não é normal.
E isso é uma excelente notícia.
Somos diferentes.
Resta-nos fazer dessa diferença um caminho para perseguirmos os nossos sonhos e construirmos a vida que queremos viver.
Não deixe que pessoas que nada sabem sobre si lhe digam quem é ou quem deixa de ser. E não seja você próprio a fazê-lo.
Estude. Leia muito. Veja muito. Ouça quem sabe verdadeiramente da sua área.
O mundo está cheio de coisas boas, de coisas más e de muita parvoíce. Aproveite o que é bom e imponha limites ao resto.
Sobretudo, desenvolva discernimento suficiente para perceber que aquilo que não assenta na ciência dificilmente lhe trará resultados consistentes.
Já agora, normal mesmo… é viver.


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