Quando a Luz se Apaga, o Sistema Fica Nu
Não foi só a eletricidade que falhou.
Foi o enredo inteiro do país dito moderno.
Foi o mito da eficiência, o disfarce da autonomia, a coreografia da civilização.
Na segunda-feira, às 11h35, o país caiu. Não no sentido metafórico — caiu mesmo. Parou. Gelou.
Primeiro as luzes, depois os sinais, depois os e-mails por enviar, os pagamentos por processar, os diagnósticos interrompidos, as refeições por terminar.
Depois o silêncio. Depois a espera.
E no fim, nada. Nenhuma explicação concreta. Nenhuma responsabilidade assumida.
Apenas a constatação de que dependemos de tudo… menos de nós.
Chamaram-lhe “fenómeno técnico”, “anomalia ibérica”, “incidente europeu”.
Chamaram-lhe tudo o que fosse suficientemente vago para evitar a palavra essencial: VULNERABILIDADE.
Porque um país que importa mais de 30% da sua energia da vizinha Espanha
— sem plano B, sem soberania energética, sem capacidade local de resposta —
não está apenas no escuro.
Está de joelhos.
Hospitais a operar com geradores obsoletos.
Serviços de emergência sem comunicações.
Empresas em colapso.
Redes móveis como brinquedos partidos.
E o discurso oficial a tentar segurar o pano da frente enquanto os bastidores ardem.
Quem lidera, lidera sobretudo no imprevisto.
Quem lidera de verdade prepara-se para o que não controla.
Mas em Portugal confundimos liderança com gestão de calendário.
Com Excel. Com reuniões de alinhamento sem nervo nem coragem.
E esquecemo-nos de que a electricidade pode falhar — mas os líderes não deviam.
Este apagão não é um episódio técnico.
É um espelho.
De como fomos ensinados a obedecer em vez de pensar.
A externalizar em vez de investir.
A cortar custos em vez de construir resiliência.
O que nos falta não são cabos.
É ética.
É visão.
É uma nova cultura de liderança, onde a dignidade das pessoas não dependa da estabilidade de um circuito.
Onde os serviços essenciais sejam tratados como tal — e não como linhas de negócio.
E enquanto os responsáveis ensaiam desculpas com luvas brancas, o país espera.
No escuro.
Com a paciência de quem já se habituou à mediocridade.
Mas eu não me habituo.
E tu também não devias.
Porque liderar é iluminar antes que falhe a luz.
É cuidar antes que doa.
É prever o risco, não apenas remediar o dano.
Segunda-feira foi só um ensaio.
O verdadeiro apagão é político.
É sistémico.
E começa no momento em que aceitamos que as falhas estruturais são “normais”.
Recusa a normalidade.
Reivindica luz própria.
E faz da tua liderança um lugar onde o país não se apague.


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