Anabela Reis Moreira

light bulb

Quando a Luz se Apaga, o Sistema Fica Nu

O apagão não começou quando faltou a eletricidade

Não foi apenas a eletricidade que falhou.

Foi a ilusão da previsibilidade.

Foi a convicção de que sistemas complexos são, por definição, sistemas seguros.

Foi a confiança quase ingénua de que a modernidade nos tornou imunes ao inesperado.

Durante alguns momentos, aquilo que parecia adquirido desapareceu.

As luzes apagaram-se.

Os sinais deixaram de funcionar.

As comunicações tornaram-se incertas.

Os pagamentos suspenderam-se.

Os serviços interromperam-se.

E, de repente, percebemos uma verdade que preferimos esquecer:

a estabilidade nunca é permanente.

A verdadeira medida da liderança

As organizações gostam de falar de estratégia.

Planeiam objetivos.

Definem indicadores.

Projetam crescimento.

Mas a liderança raramente é posta à prova quando tudo funciona.

A liderança revela-se quando deixa de existir normalidade.

É precisamente no imprevisto que descobrimos se existia preparação ou apenas rotina.

Se existia visão ou apenas gestão.

Se existia capacidade de antecipação ou simples confiança de que nada iria acontecer.

A diferença entre gerir e liderar mede-se, muitas vezes, no primeiro minuto da crise.

A vulnerabilidade não é uma fraqueza. É uma condição.

Vivemos numa sociedade extraordinariamente sofisticada.

Mas também extraordinariamente interdependente.

A energia depende de infraestruturas complexas.

As comunicações dependem de redes distribuídas.

Os serviços públicos dependem de tecnologia.

As organizações dependem de fornecedores, plataformas e cadeias de abastecimento que ultrapassam fronteiras.

Quanto maior é a interligação, maior é também a necessidade de resiliência.

Porque sistemas altamente eficientes podem revelar-se profundamente frágeis quando deixam de existir alternativas.

E nenhuma organização pode considerar-se preparada se nunca se perguntou:

“O que acontece quando tudo aquilo em que confiamos deixa de funcionar?”

Resiliência não se improvisa

Nas empresas fala-se frequentemente de transformação digital.

Fala-se de inovação.

Fala-se de inteligência artificial.

Muito menos se fala de continuidade operacional.

De redundância.

De gestão do risco.

De preparação para cenários improváveis.

Contudo, é precisamente essa preparação silenciosa que distingue organizações resilientes de organizações vulneráveis.

A crise não cria competências.

Apenas revela aquelas que já existiam.

Liderar é preparar o improvável

Existe uma tendência para associar liderança à capacidade de inspirar.

Mas inspirar é apenas uma parte da responsabilidade.

Liderar é também antecipar.

Questionar.

Preparar.

Criar sistemas capazes de continuar a funcionar quando as circunstâncias deixam de ser favoráveis.

É pensar naquilo que ninguém quer imaginar.

Porque o risco nunca desaparece por ser ignorado.

O verdadeiro apagão

Talvez o episódio que vivemos seja menos importante pelas horas sem eletricidade do que pelas perguntas que nos obriga a fazer.

Estamos verdadeiramente preparados para enfrentar falhas sistémicas?

As nossas organizações conhecem os seus pontos críticos?

Os planos de contingência existem apenas em documentos ou funcionariam na realidade?

As lideranças treinam cenários de crise ou limitam-se a gerir o quotidiano?

Estas perguntas não dizem respeito apenas às infraestruturas.

Dizem respeito à cultura de liderança.

A luz que nenhuma falha pode apagar

Nenhum sistema é infalível.

Nenhuma tecnologia elimina completamente o risco.

Nenhum país, organização ou equipa consegue prever todas as crises.

Mas existe uma diferença fundamental entre sofrer uma crise e estar despreparado para ela.

A primeira é inevitável.

A segunda resulta, quase sempre, de escolhas.

Talvez a maior lição deste episódio seja precisamente esta:

a resiliência constrói-se muito antes da emergência.

Constrói-se quando investimos na prevenção em vez da reação.

Quando desenvolvemos lideranças capazes de pensar para além do imediato.

Quando compreendemos que eficiência sem redundância pode transformar-se numa forma sofisticada de fragilidade.

Porque a eletricidade pode faltar.

Os sistemas podem falhar.

A tecnologia pode parar.

Mas uma liderança preparada continua a ser a fonte de energia mais importante de qualquer organização.

E essa nunca deveria entrar em apagão.


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