Dia de Portugal, de Camões e os treinadores de bancada do Português
Elogiar em público. Corrigir em privado.
Hoje de manhã, abri as redes sociais e vi muitos, mesmo muitos posts sobre o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Voltei atrás e a grande maioria destes posts eram de crítica e gozo com as pessoas que escrevem mal português.
Detive-me a pensar:
Será que estas mesmas pessoas que criticam quem escreve “fizes-te” ou “disses-te”, corrigem de forma pedagógica e ativa quem escreve desta forma?
Criticar ou ensinar?
Já me revoltei muito também com quem escreve mal a língua que nos dá também identidade, quem acentua advérbios de modo, que abrevia o que não é abreviável e por aí adiante.
Percebi que com isso tinha ZERO retorno.
As pessoas que o fazem continuarão a não saber que o fazem porque já se tornou automático, ou seja, lá se mentalizaram que é assim que se escreve.
Percebi também que tinha sucesso quando algumas pessoas colocavam posts mal escritos e eu, no chat, em privado, lhes dizia que achava que não era assim que se escrevia e explicava a regra do Português.
E percebia, em publicações futuras, que não voltavam a dar erro.
Uma lição para a vida
E relembrava o meu pai, que me dizia:
“Elogia em público e corrige em particular.”
Talvez uma das lições de vida que mais me ajudou em tudo até hoje, inclusive na Gestão de Recursos Humanos.
Ninguém aprende nada pela vergonha, especialmente adultos.
Aprendem a odiar e a condensar a vergonha em ódio por quem envergonhou e, sobretudo, em frustração.
O privilégio de aprender
Fui mesmo muito privilegiada.
Tive a melhor professora primária que se pode ter, e que me incentivou o amor pela leitura e pela escrita.
Obrigada, Dna. Fernandinha Bessa.
Tinha todo o apoio em casa e, ao longo da minha vida, tive professoras excecionais de Português.
Não posso dizer o mesmo de outras áreas (como o inglês, que tive de aprender por mim no British Council, já que cada professora de inglês que tinha era, como diz o povo, “cada tiro, cada melro”), mas de Português, Matemática e Geografia tive sempre professores excecionais.
Não se pode dizer o mesmo de muitas pessoas…
E daí os erros.
Nem todos tiveram as mesmas oportunidades
Também não se pode dizer o mesmo do meu privilégio de ir à escola, de poder brincar e estudar em casa.
Muitas pessoas fizeram a escola a correr e a casa a trabalhar.
O português perdeu-se por aí.
Muitas, imigrantes, sabem mentalmente várias línguas, o que exige uma enorme ginástica cognitiva, e comunicam em várias línguas, mas acabam por perder a escrita em todas elas.
Ensinar em vez de ridicularizar
Pelo caminho, deixei de criticar publicamente e unilateralmente, em posts, pessoas que podem apenas ter sido vítimas de uma sociedade pior.
As que, por desmotivação — seja ela qual for — também não aprenderam, não há mal:
Podemos todos ensinar agora.
Todos nós, os treinadores de bancada de um Português maior.
Com isso, escusamos de ser voluntários em organizações sociais, porque já estamos a fazer a nossa parte.
Um convite
Por isso, neste Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, nós, os privilegiados, que podemos ler, que sabemos escrever e que gostamos de o fazer, que possamos ser embaixadores da língua que amamos tanto, todos os dias, e que nos dá identidade.
Que possamos passar a outros esse amor.
Por isso, bom trabalho voluntário a ensinar quem também ama a língua, só não a sabe escrever.
Boa sorte e bom trabalho!


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