“Pense fora da Caixa!” – Não! Adoro Caixas!
Adoro caixas e caixinhas. Adoro arrumar coisas e coisinhas e ter tudo no lugar certo. Já basta o caos dos pensamentos e a fluência entre o que se pensa, o que se escreve e o que se diz. E, às vezes, tudo o que implica pensar, mas não escrever e, sobretudo, não falar.
Sou consultora de Recursos Humanos. Levo às costas muitos anos de gestão de pessoas. Gosto muito de quando entro numa empresa ou numa nova organização e me encomendam isto:
“Anabela, queremos um projeto de gestão de pessoas FORA DA CAIXA!”
Adoro!
Gosto tanto, mas tanto!
A minha rajada de perguntas é logo esta:
Fora da caixa? De que caixa? De qual caixa? Da minha caixa? Da sua caixa? Da caixa dos seus colaboradores? Que caixa é essa?
Não estamos fora da caixa e nunca estaremos fora da caixa.
Estamos sempre na nossa caixa e nas caixas onde nos colocam.
A nossa caixa é bonita. É sempre proporcional à nossa história pessoal e ao que fazemos com ela. É proporcional às nossas experiências, ao que aprendemos na escola, com os outros e com a vida. É proporcional ao que lemos, ao que estudamos, ao que vemos, ao que sabemos e, sobretudo, ao que acreditamos ser verdade ou mentira.
A minha verdade e a minha mentira não são a sua verdade nem a sua mentira, porque tenho outra caixa: a caixa da mochila de experiências de uma vida que carrego às costas e que poderei, ou não, querer descarregar.
E não quero descarregar.
Não quero mesmo descarregar nem um segundo da minha vida.
A vida é para ser vivida. A minha tem sido vivida. E tenho ainda uma vida inteira para viver.
Quanto a ser “fora da caixa”? É apenas uma expressão que serve os coaches que querem vender uma vida criativa e inspiradora.
Na verdade, nem precisa disso. Nem precisa de comprar essa ideia de viver ou fazer as coisas fora da caixa. Basta que, dentro dos seus sonhos, comece a construir planos de ação.
Serão sempre dentro da sua caixa.
Mas haverá caixa melhor para se estar?
Estamos sempre dentro da caixa
Estamos sempre dentro da nossa caixa.
A caixa pode é alargar.
Quanto mais vir, viajar, estudar, ler e pensar, mais a caixa cresce.
Tal como uma família que aumenta e precisa de uma casa maior, também nós precisamos de mais espaço.
De mais mundo.
De mais mundos.
De mais pessoas bonitas e interessantes.
De mais leitura.
De mais cinema.
De mais música.
De mais arte.
De mais tudo.
Vivemos para alargar a nossa caixa.
Vivemos para entrar — quando nos deixam — nas caixas das outras pessoas.
Vivemos para dar luz e cor a caixas vazias e a caixas menos coloridas.
Vivemos também para sermos caixas vazias, por vezes.
(E que ninguém nos venha povoar a caixa ou colonizá-la. Não serve nesse momento.)
As caixas da sociedade
Tente viver fora das caixas da sociedade.
Onde é que vai chegar se não viver dentro dessas caixas?
Vivemos também para encaixar as pequenas caixinhas que a sociedade nos impõe.
A caixa do que é socialmente aceitável.
A caixa da profissão perfeita.
A caixa da aceitação social.
A caixa do que vestir.
A caixa do sucesso.
(Adoro a caixa do sucesso!)
Nós somos a sociedade e, por isso, encaixamos — ou encaixotamos — a própria sociedade.
Em nome de pagar contas e viver, deixamos que ela nos encaixe como entende.
Geralmente, no encaixe perfeito.
Viva dentro da caixa!
Viva dentro da caixa.
É o que lhe recomendo.
Da caixa da curiosidade.
(Não deixa de ser uma caixa.)
Da caixa da tentativa e erro.
Da caixa da saúde.
Da caixa de viver segundo aquilo em que acredita e da forma como acredita.
Da caixa da generosidade pura.
Da caixa da humanidade pura.
Viva dentro da caixa.
Ofereça a sua caixa a quem a quiser.
Coloque um lacinho na sua caixa — os lacinhos que quiser.
E vá viver lá fora.
Mas volte.
A caixa fica à sua espera.
Publicado no LinkedIn, em 9 de dezembro de 2019.


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