Anabela Reis Moreira

woman smiling and sitting

Porque é que os homens (alguns) ainda se sentem no direito de comentar a vida das mulheres — sem as conhecerem?

Enviei uma proposta de colaboração — formação em Liderança, IA e Transformação Organizacional.

A resposta foi breve:

“A sua forma de estar não me parece ter paralelismo com o que procuramos num colaborador.”

Sem entrevista.

Sem reunião.

Sem sequer me conhecer.

O que este episódio revela não é um caso isolado: é um padrão cultural.

Quando uma mulher fala com firmeza, é “inadequada”.

Quando um homem o faz, é “assertivo”.

Quando uma mulher pensa com autonomia, é “difícil”.

Quando um homem o faz, é “líder”.

O que está em causa não é a recusa.

É a premissa.

A ideia de que o comportamento de uma mulher deve caber num molde de agradabilidade, contenção e silêncio.

Os dados confirmam o enviesamento.

Segundo o World Economic Forum (2024), 73% das mulheres em posições de liderança afirmam ter sido avaliadas com base na sua “atitude”, em vez da sua competência.

E a Harvard Business Review (2023) mostrou que, em processos de seleção, as mulheres são 1,5 vezes mais penalizadas por demonstrarem confiança do que os homens por demonstrarem arrogância.

É a mesma cultura que perpetua grupos de masculinidade tóxica.

Homens que acreditam que a autonomia feminina é uma ameaça, e não uma evolução.

Que ainda veem as mulheres como “suporte”, e não como par.

Que confundem ética com submissão e respeito com obediência.

A minha resposta foi simples:

“Não teria interesse em colaborar com uma organização que critica a forma de estar — seja de quem for.”

Porque a forma de estar é precisamente o que distingue quem tem integridade de quem tem medo dela.

O sexismo contemporâneo não grita.

Sussurra.

Veste fato, escreve e-mails cordiais e chama-lhe “fit cultural”.

Mas o que está por baixo é o mesmo mecanismo antigo: controlar o lugar de fala das mulheres.

Em 2025, isto ainda acontece.

E continuará a acontecer enquanto as mulheres forem julgadas não pelo que fazem, mas por como o fazem.

Falar de ética organizacional é também falar disto.

Da violência subtil travestida de formalidade.

Do machismo que se mascara de profissionalismo.

Da coragem que continua a ser confundida com insolência.

Sem ética, não há estratégia.

Só teatro.

E eu recuso participar em qualquer palco onde a decência ainda dependa do género de quem fala.

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