Quando a equipa que construímos começa a liderar-nos também
Nos últimos dias aconteceram-me duas coisas que, aparentemente, não têm muito a ver uma com a outra, mas que me fizeram pensar bastante sobre liderança.
A primeira foi ter mudado finalmente o meu título no LinkedIn para Founder & CEO da Venue1Hub® – Your Premier Venue Partner . A segunda foi ter levado um pontapé no rabo da minha própria equipa.
A segunda, reconheço, foi bastante mais pedagógica.
Já escrevi sobre as duas coisas por aqui, publicações mais curtas no LinkedIn, mas fiquei a pensar no que existe por trás delas, porque há uma diferença substancial entre saber alguma coisa sobre liderança, ensinar alguma coisa sobre liderança e estar no lado em que somos obrigados a praticá-la quando isso nos tira da zona confortável.
Trabalho com pessoas e organizações há muitos anos e uma parte considerável daquilo que defendo enquanto Diretora de Recursos Humanos passa por construir equipas com autonomia, dar espaço para decisão, evitar estruturas excessivamente dependentes de uma única pessoa e criar condições para que as pessoas consigam fazer o seu trabalho sem precisarem constantemente de autorização superior.
Parece-me uma ideia extraordinária. Até sermos nós a autorização superior.
Foi mais ou menos isso que descobri esta semana.
Durante meses pedi à equipa da Venue1Hub® – Your Premier Venue Partner autonomia, capacidade de decisão, iniciativa, responsabilidade e honestidade suficiente para me contrariar quando considerassem que eu estava errada. Não queria construir uma empresa em que tudo tivesse de passar por mim, nem queria uma equipa de pessoas competentes que, perante cada decisão, tivesse de perguntar “Anabela, podemos?”.
Depois chegou o momento em que fizeram exatamente aquilo que eu lhes tinha pedido. E contrariaram-me.
O Rúben Lascasas disse-me que já podíamos ir live. Eu achava que não. A Lídia, o Rafael e o Rúben consideravam que os testes já nos tinham dado informação suficiente para avançarmos e que os erros que aparecessem seriam identificados, reportados e resolvidos.
Eu queria testar mais.
Claro que queria testar mais.
Há sempre mais alguma coisa que podemos testar, mais um detalhe para rever, mais uma situação que ainda não aconteceu mas que, com algum esforço e uma imaginação suficientemente catastrófica, conseguimos antecipar.
Até que me perguntaram do que é que eu estava, concretamente, à espera.
E a resposta honesta era muito simples: estava à espera de me sentir completamente segura.
Ora, uma empresa não pode esperar por isso.
Aliás, provavelmente quase nada de relevante na vida pode.
A pergunta fez-me pensar também no tipo de empresa que estou a tentar construir, porque a Venue1Hub nasceu, entre outras coisas, de uma experiência anterior que me ensinou uma lição que não quero repetir.
Já tive uma empresa excessivamente assente em mim. Grande parte do conhecimento estava em mim, grande parte das decisões passava por mim e grande parte da operação dependia da minha capacidade de continuar a funcionar.
Quando a minha saúde falhou, a empresa falhou comigo.
Desta vez estou a construir de outra forma.
A estrutura inicial da Venue1Hub® – Your Premier Venue Partner foi pensada precisamente para ser leve, especializada, distribuída e capaz de crescer através de diferentes competências, com tecnologia, operações, design, negócio e outras áreas que não estão concentradas numa só pessoa. À medida que crescermos, algumas competências serão internalizadas, outras mudarão e outras pessoas chegarão, mas há uma decisão que quero preservar: a empresa não pode ser uma extensão da fundadora. Tem de ser uma organização.
Só que dizer isto é muito mais fácil do que viver as consequências.
Porque se queremos verdadeiramente uma equipa autónoma, temos de aceitar que ela chegará a conclusões antes de nós, discordará de nós e, ocasionalmente, perceberá que somos precisamente nós que estamos a criar o bloqueio.
A autonomia que só existe quando as pessoas concordam connosco não é autonomia. É uma forma bastante sofisticada de obediência.
E a confiança que desaparece assim que deixamos de controlar a decisão também não é confiança.
Talvez seja por isso que esta passagem para Founder & CEO me esteja a custar mais do que imaginei.
Não é o título. Não tenho propriamente uma crise existencial com três letras.
É a mudança de lugar.
Durante muitos anos, o meu trabalho passou por olhar para organizações, líderes, equipas e culturas e perceber o que estava a funcionar, o que estava a falhar, onde existiam riscos e que comportamentos de liderança estavam a ajudar ou a prejudicar uma organização.
Agora continuo a fazer tudo isso, mas existe uma pequena diferença bastante incómoda: uma das líderes que tenho de observar sou eu.
E descobri que há um enorme valor em ter pessoas à nossa volta que não confundem respeito com silêncio.
Uma equipa que concorda sempre connosco pode ser muito confortável, mas dificilmente será uma equipa particularmente útil.
Sobretudo quando estamos a construir alguma coisa de raiz.
A Venue1Hub está numa fase em que já não é apenas uma ideia, nem um documento, nem uma plataforma que estamos a configurar. O plano é lançar em Portugal, validar o modelo, começar a construir massa crítica de oferta e procura e, progressivamente, escalar aquilo que funcionar.
E validar significa precisamente isto: colocar no mundo.
Não continuar eternamente a aperfeiçoar uma coisa que ninguém está ainda a usar.
Há uma frase no nosso próprio plano tecnológico que, depois desta reunião, ganhou para mim uma ironia especial: lançar rapidamente, validar o mercado, crescer e evoluir progressivamente à medida que a escala o justificar.
Muito bonito no plano de negócios.
Aparentemente, faltava explicar à CEO que também se aplicava a ela.
É por isso que quero recuperar também a Shaping Leaders nesta fase.
Esta newsletter sempre nasceu da minha vontade de pensar liderança para além do cargo, do organograma e das frases feitas, mas agora tenho também um laboratório novo onde observar tudo aquilo sobre que trabalho há tantos anos.
A construção da Venue1Hub vai trazer decisões sobre pessoas, estrutura, cultura, crescimento, confiança, erro, conflito, responsabilidade, poder, autonomia e provavelmente muitos outros temas que ainda nem consigo antecipar.
Quero partilhar alguns deles aqui.
Não pretendo transformar a Shaping Leaders numa newsletter da Venue1Hub, porque não é isso que ela é. Continuará a ser um espaço sobre liderança, gestão de pessoas, organizações, trabalho e tudo aquilo que acontece quando colocamos seres humanos dentro de estruturas e esperamos que consigam fazer coisas em conjunto.
Mas, inevitavelmente, a Venue1Hub fará parte dessas conversas.
Até porque estou a perceber que há poucas formas melhores de testar aquilo em que acreditamos sobre liderança do que construir uma equipa e descobrir se conseguimos suportar a autonomia que tanto defendemos.
Brevemente, a Venue1Hub® – Your Premier Venue Partner estará no ar.
E eu continuarei por aqui a falar de liderança.
Agora com a vantagem adicional de ter uma equipa disponível para me avisar quando eu própria estiver a precisar de um pontapé no rabo.
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🧭 Trabalho com líderes e organizações na intersecção entre gestão de pessoas, ética, inteligência artificial 🤖 e cultura organizacional, onde a tecnologia exige critério, a liderança exige consciência e a performance não pode ser construída à custa do humano.
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