Anabela Reis Moreira

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Escrever dá Cadeia! – Uma análise comparativa às artes

Aqui há algum tempo, fiquei a admirar um quadro incrível e sanguinário e saltou-me um pensamento: o que é que o pintor tinha na cabeça ao pintar aquele quadro, incrivelmente bonito e sanguinário? Qual foi o drive? A paixão? A obsessão? A opressão?

A partir daí, a minha cabeça não parou.

A Arte é linda, mas o que vai na cabeça dos artistas para colocarem cá fora tamanha beleza e, ao mesmo tempo, tamanho confronto com a sociedade?

A partir daí, as ligações foram claras.

Nos primeiros anos, sentado nas cadeiras dos anfiteatros de Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, aprendi a liberdade. A liberdade de ser, estar, fazer, exprimir e os limites lógicos e jurídicos dessa liberdade. Aprendi com os melhores. A dream team do Direito: Gomes Canotilho e Vital Moreira.

Ora bem, até onde vai a liberdade de pensar, sentir e exprimir? Até onde vão os limites jurídicos e morais? Até onde podemos ir?

1.ª Arte – Música e Som

Um rapper parvo qualquer, ou um cantor qualquer, produz uma música que reproduz estereótipos de género, de etnia, é racista, incita à violência, junta-lhe uns acordes fixes. Bum! É um êxito! Pelo caminho mete um videoclip com umas mulheres despidas, uns homens giros, enche-se de correntes de ouro e brilhantes e toda a gente quer ser como ele ou ela.

Um escritor escreve esta música e publica-a num blogue. Posso imediatamente associar vários crimes e nem preciso de abrir o Código Penal.

Bum! Está preso!

2.ª Arte – Artes Cénicas / Teatro / Dança / Coreografia / Ilusionismo / Movimento

Montas um espetáculo incrível. Arte, luz, cor. Uma coisa bélica. Que traduz a guerra em que vives todos os dias. Tens repressões escondidas. Tens ilusões escondidas. Tens tudo tão escondido que essa repressão se transforma na maior perversão e… pum! Um espetáculo incrível com o mais recôndito da tua mente! Um agressor. Um violador. Tudo expresso através da luz e da cor.

Um escritor escreve sobre repressões, perversões, desejos e até sentimentos.

Pum! Está preso!

3.ª Arte – Pintura / Cor

Olhas para a Guernica e pensas: que génio!

Compreendes o drive? Compreendes a motivação intrínseca? Compreendes a garra? Compreendes a raiva? Compreendes a inquietação?

Não.

Na escola ensinam-nos a ler, a fazer contas e, no limite, a compreender. Temos praticamente zero literacia visual e não estamos dentro da cabeça do pintor.

Pintas guerra. Pintas destruição. Pintas o que te vai na alma. É arte.

Um escritor escreve guerra, escreve a destruição que quer causar, escreve o que lhe vai na alma.

Bum! Está preso!

4.ª Arte – Escultura

Adoro escultura. Acho-a linda. Incrível.

Algumas afrontam-me no primeiro instante.

A escultura, como qualquer arte, é aquilo que nós quisermos que ela seja para nós. O artista cria e, a partir desse momento, a obra deixa de ser dele e passa a ser nossa.

Como qualquer arte, é uma manifestação exterior de sentimentos e de visões. Reproduz a visão do autor.

Esculpes o corpo nu de uma mulher. Esculpes o corpo nu de um homem. A tua visão. As tuas proporções.

Arte.

Um escritor escreve que aquela mulher nua lhe parecia uma prostituta com quem um dia esteve e descreve tudo o que aconteceu.

Bum! Está preso!

5.ª Arte – Arquitetura / Espaço

Grandes arquitetos. Grande beleza na boa arquitetura. Grandes artistas.

Adoro olhar para o céu e ver edifícios bonitos. Vidro. Metal. Cor.

Arte.

Não colocou acessibilidades porque, na cabeça do arquiteto, isso retirava beleza à obra. E também não são assim tantas as pessoas com deficiência, logo ninguém vai notar. Não é preciso colocar.

Tudo em nome da arte.

Um escritor escreve, na descrição do edifício, que a utilização não está prevista para pessoas com deficiência e que, por isso, não vê necessidade de criar acessibilidades.

Bum! Está preso!

7.ª Arte – Cinema / Audiovisual

Vamos começar por um filme.

Pode ser o Seven. Podiam ser mil.

Sanguinário. Brutal. Ameaçador. Brilhante.

Arte.

O que ia na cabeça e nas emoções do realizador? O que está ele a manifestar? O que está a comunicar?

Arte.

Um escritor escreve que quer matar, acabar, queimar…

Bum! Está preso!

Jogo no campo da latitude e da longitude. Também no exagero.

Mas pensar e escrever dá cadeia.

Escrever sentimentos e falar de sentimentos prende.

Sinta.

Mas não fale.

Nem escreva.

Está bem?

Vai dar-lhe problemas.

Publicado no Repórter Sombra, em 21 de novembro de 2019.

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