Anabela Reis Moreira

E se um diretor de recursos humanos vos contactasse para revelar dados pessoais de uma ex-colaboradora?

Faço esta pergunta porque me aconteceu algo que, sinceramente, nunca pensei viver.

Não conheço a pessoa em causa. Nunca trabalhei com ela. Nunca tive qualquer relação profissional ou pessoal. Na verdade, nem a conhecia.

E, ainda assim, fui contactada por um Diretor de Recursos Humanos para corrigir uma informação relacionada com uma antiga colaboradora da empresa.

Até aqui, nada de extraordinário.

Todos cometemos erros. Eu própria, se interpretar incorretamente uma função ou um cargo, agradeço que me corrijam. E foi exatamente isso que aconteceu. Interpretei mal a situação.

Temos realizado muitos background checks na minha equipa ultimamente, mas este não era um desses casos. Simplesmente apresentei uma pessoa como Diretora de Recursos Humanos de uma empresa e este senhor entendeu informar-me de que esse cargo era, afinal, dele.

O problema começou depois.

Porque a correção rapidamente deixou de ser sobre a função. Passou a ser sobre a pessoa.

Sem que eu tivesse perguntado. Sem que tivesse solicitado qualquer esclarecimento. Sem que existisse qualquer necessidade para isso.

Começaram a surgir referências a licenças de maternidade, períodos de ausência, licenças sem vencimento e outros aspetos da vida profissional e pessoal daquela antiga colaboradora.

Foi nesse momento que deixei de pensar no caso concreto.

Passei a pensar noutra coisa.

Se alguém que ocupa uma função de direção em Recursos Humanos considera normal partilhar este tipo de informação com uma pessoa totalmente externa à organização, que nunca viu e que nem sequer conhece, o que nos diz isso sobre a forma como entende a confidencialidade?

O que nos diz sobre a proteção dos trabalhadores?

O que nos diz sobre a confiança que qualquer colaborador deve poder depositar na área que, em teoria, existe precisamente para proteger a integridade das pessoas e dos processos?

A questão nem sequer é jurídica.

É ética.

A maioria das organizações tem códigos de conduta, políticas internas, manuais de compliance e apresentações inspiradoras sobre valores.

Mas a verdadeira cultura de uma organização revela-se quando alguém tem acesso a informação sensível.

É nesse momento que percebemos se a confidencialidade é, de facto, um princípio ou apenas uma palavra bonita num PowerPoint.

Porque proteger informação não é uma obrigação apenas quando é conveniente.

É um compromisso permanente.

Mesmo quando ninguém está a ver.

Mesmo quando seria mais fácil falar.

Mesmo quando o interlocutor não fez uma única pergunta.

Se isto vos acontecesse, o que fariam?

Ignoravam?

Consideravam normal?

Ou entenderiam, como eu, que existe uma linha que nunca deveria ser ultrapassada, independentemente do cargo, do contexto ou de quem decide atravessá-la?

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