Anabela Reis Moreira

woman carrying baby while walking

O impacto da maternidade na identidade profissional da mulher

A maternidade não fragiliza a carreira. Fragiliza as organizações que não sabem reconhecê-la.

Fui convidada para palestrar nas II Jornadas de Psicologia das Organizações, Social e do Trabalho da Universidade do Porto.

O convite chegou com um tema que me importa profundamente — e que, ao longo de 26 anos de vida profissional, observei repetidamente, de perto, com consequências reais para pessoas reais.

O tema é este: como a maternidade — o acto mais fundador da continuidade humana — impacta a vida profissional da mulher e a sua identidade.

Envolve muita coisa.

Muita coisa mesmo.

O que a experiência me mostrou

As pessoas mais competentes que encontrei ao longo da minha vida profissional eram mulheres e mães.

Não é romanticismo — é observação consistente.

A capacidade de gerir simultaneidade, de tomar decisões sob pressão com consequências emocionais e logísticas em tempo real, de manter a qualidade da entrega quando o contexto pessoal exige o máximo era notável.

E era, quase sempre, invisível para quem avalia desempenho a partir de métricas desenhadas sem essas mulheres dentro.

Há um grupo que merece reconhecimento explícito: as mulheres que conduzem sozinhas um barco difícil, que educam uma criança com o mínimo de rede de suporte e que chegam ao trabalho com amor de sobra pelos colegas e brio genuíno no que fazem.

Não deviam precisar de admiração.

Deviam ter estruturas.

A diferença entre as duas coisas é exactamente o problema que este tema coloca.

A exigência que se torna identidade

À mulher é exigido tudo — em simultâneo, sem pausa, sem negociação.

E, quando a exigência é suficientemente constante e suficientemente normalizada, deixa de ser pressão externa e torna-se identidade internalizada.

É aqui que o dano se instala de forma mais profunda e mais difícil de nomear.

É exigido que seja mãe e que fique logo saudável — física, emocional e profissionalmente.

A depressão pós-parto não tem lugar no calendário organizacional.

Afinal, há um amor nos braços.

Como se amor e exaustão fisiológica, hormonal e psicológica fossem mutuamente exclusivos.

Como se o sistema nervoso soubesse distinguir entre gratidão e colapso.

É exigido que regresse ao trabalho assim que possível.

E, em grande parte dos casos, o regresso é seguido de despedimento.

Não sempre de forma declarada.

Muitas vezes por via de exclusão progressiva, de projectos que desaparecem, de promoções que deixam de ser mencionadas, de avaliações que mudam de tom.

Brevemente, com a Marta Loureiro Rodrigues, iremos promover um estudo formal sobre esta realidade — porque ela precisa de dados e não apenas de relatos individuais que o sistema continua a tratar como excepções.

É exigido que seja dona da casa e dona de casa — com tudo o que essa duplicidade implica em termos de carga cognitiva invisível, de gestão logística permanente e de presença emocional que não aparece em nenhum indicador de produtividade.

É exigido que trate dos filhos com o mínimo de suporte estrutural possível.

É exigido que esteja impecável — corpo, cabelo, presença, humor.

E, no trabalho, é exigido que não cause ondas.

Que compactue com o que existe.

Que não nomeie o que toda a gente observa.

Porque, quando algo corre mal, o problema tende a ser localizado na mulher — na sua gestão do tempo, na sua falta de disponibilidade, na sua incapacidade de separar os dois mundos que o sistema insiste em tornar incompatíveis.

Esta arquitectura de exigências não é apenas injusta.

É um sistema de incentivos que penaliza a maternidade e recompensa a sua ausência ou a sua invisibilidade.

E, quando um sistema funciona assim durante tempo suficiente, as próprias mulheres começam a internalizar essa penalização como lógica natural.

O que a maternidade traz ao trabalho

Há algo que precisa de ser dito com clareza: ser mãe traz superpoderes para o trabalho. E não o contrário.

A capacidade de tomar decisões com informação incompleta, de gerir prioridades em tempo real com consequências emocionais directas, de funcionar sob privação de sono e manter a capacidade de julgamento, de negociar, de antecipar, de reparar relações — tudo isto é desenvolvido, aprofundado e testado na maternidade de uma forma que nenhum programa de desenvolvimento de liderança replica com a mesma intensidade.

O problema é que o sistema organizacional não tem instrumentos para reconhecer este capital.

As métricas foram desenhadas para medir outra coisa.

A questão que fica

A questão que fica, e que levo para a palestra de amanhã, é estrutural:

Quem beneficia de um sistema que trata a maternidade como risco e não como competência?

E quem paga o custo de o manter assim?


Agradeço o convite às II Jornadas de Psicologia das Organizações, Social e do Trabalho da Universidade do Porto.

Para quem quiser inscrever-se e acompanhar, o link de inscrição está aqui:

Jornadas de POST

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