Presentismo – O desafio da saúde mental no trabalho
Conhece alguém que, mesmo depois do horário de trabalho, permanece agarrado à secretária? Hesita em ser o primeiro a sair porque “parece mal” sair antes dos outros. Como forma de camuflagem, dá uma espreitadela aos emails ou às redes sociais, na esperança de que alguém tome a iniciativa de sair. Quando finalmente alguém se levanta para sair, mesmo após o horário de expediente, todos os outros colegas seguem o exemplo. Reconhece esta situação?
Da mesma forma, conhece alguém que, para dar conta do trabalho, fica no escritório muito para lá do que foi acordado? Trabalha mesmo quando está doente, como se o corpo não tivesse direito a um descanso. Mesmo com dores de cabeça, constipações e, por vezes, até febre, está sempre presente. Para esta pessoa, o descanso não parece ser uma prioridade, uma vez que está sempre atenta aos emails e ao telemóvel, mesmo ao fim de semana. Agora, conhece alguém que se encaixe neste exemplo?
Se estas situações te parecem familiares, então estás a lidar com o que chamamos de “presentismo”.
O que é o presentismo?
O presentismo é quando alguém passa mais tempo no local de trabalho do que o necessário, muitas vezes para além do horário contratado, mas sem que essa presença adicional se traduza em maior produtividade. É importante notar que o presentismo é bem diferente do absenteísmo. Enquanto o absenteísmo ocorre quando alguém chega atrasado, sai mais cedo ou falta ao trabalho, o presentismo é o oposto, como já mencionado. A pessoa está fisicamente no trabalho, por vezes até mais tempo, mas isso não significa que seja mais produtiva.
As crises económicas têm sido um grande impulsionador do presentismo, porque as pessoas evitam faltar, vão trabalhar mesmo doentes, chegam mais cedo e saem mais tarde por receio de perder o emprego. Apesar de haver uma crescente consciencialização sobre o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, especialmente entre as gerações mais jovens, a ideia de que “ficar mais tempo na empresa é sinal de dedicação” ainda está profundamente enraizada na nossa cultura.
Qual o impacto do presentismo na empresas?
O presentismo tem um impacto muito negativo nas empresas. Isso inclui a falta de motivação, a frustração em relação ao empregador e/ou à função, e relações difíceis entre os colegas de trabalho. Quando a desmotivação e frustração são elevadas, os colaboradores têm dificuldade em entender os objetivos do seu trabalho e sentem-se desiludidos, o que leva a uma menor produtividade. No que diz respeito à saúde, o presentismo pode aumentar os níveis de stress, ansiedade e, em casos mais graves, contribuir para a depressão. Além disso, quando os colaboradores vão trabalhar doentes, podem colocar em risco a saúde dos seus colegas, contribuindo para a propagação de doenças.
O que podem os empregadores fazer para combater o presentismo?
Embora não seja uma tarefa fácil, combater o presentismo requer maturidade por parte da gestão, mas não é impossível e deve ser uma prática constante no dia a dia das empresas. Em primeiro lugar, a punição não é a melhor abordagem. Um bom líder deve pensar em estratégias de crescimento e desenvolvimento.
Uma medida inicial poderia ser reduzir a insegurança dos colaboradores em relação aos seus empregos, implementando feedbacks positivos. Isso permite que os colaboradores se sintam valorizados pelo seu trabalho, não apenas a nível individual, mas também perante os seus colegas, o que aumenta a motivação. A insegurança em relação ao emprego é um fator de risco para a saúde mental dos colaboradores.
Incentivar a criatividade dos colaboradores é também fundamental. Eles podem ser convidados a contribuir com soluções criativas para desafios na organização ou otimizar produtos e serviços. O objetivo é promover uma mudança de atitude baseada em sugestões criativas para a melhoria, em vez de medo, como a possibilidade de sugerir horários flexíveis.
Horários flexíveis são uma ferramenta eficaz para combater o presentismo, permitindo que os colaboradores gerenciem o seu próprio tempo, sem a pressão de estender o expediente. Além disso, a organização deve incentivar um equilíbrio saudável entre o trabalho e a vida pessoal.
Uma pesquisa recente da Microsoft no Japão descobriu que reduzir as horas de trabalho levou a um aumento significativo na produtividade (40%). Isso apoia a ideia de que, em muitos casos, “menos é mais”.
Investir em práticas que promovam a felicidade organizacional é outra estratégia eficaz. Colaboradores motivados e felizes tendem a envolver-se positivamente com a organização, faltando menos e produzindo mais.
Em resumo, quando uma organização investe nas pessoas, todos saem a ganhar. Os colaboradores beneficiam de maior motivação, bem-estar e envolvimento, e a organização colhe os frutos desse investimento, incluindo maior produtividade e qualidade nos produtos e serviços oferecidos.


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