Anabela Reis Moreira

O que é viver?

Viver é muito mais do que existir

No início do ano, uma pessoa que conheci e com quem saí algumas vezes, zangado comigo disse-me:

“Sai detrás desse ecrã e vai viver a vida!”

Dizia uma pessoa que, tirando os jogos de computador (sim, muito tempo atrás de um ecrã) e algumas obsessões, pouco mais fazia com a sua vida.

Ora bem, pensei eu muito sobre isto do que é “viver a vida” e dei-me por satisfeita porque hoje, prestes a fazer 45 anos, sinto que vivi como pouca gente que conheço (e conheço muita gente, afinal dei aulas a muita gente, sendo gestora de recursos humanos, entrevistei e entrevisto muita gente. Poucos amigos, muito conhecidos. Muitas pessoas interessantes e importantes. Muitas aprendizagens.).

“Temos tanta pressa de fazer algo, escrever, amontoar bens e deixar ouvir a nossa voz no silêncio enganador da eternidade que esquecemos a única coisa em relação à qual as outras não são mais do que meras partes: viver.”
ROBERT LOUIS STEVENSON


Mas afinal, o que é viver?

As palavras que aqui escrever, serão necessariamente minhas e por isso projeções daquilo que eu sou.

No entanto viver, no que observo em mim, no que observo nos outros, é tentar.

Viver é arriscar: tentar e arriscar.

Viver é agarrar as oportunidades que nos batem à porta ou então, fazer essas oportunidades (e sabem as pessoas que comigo privam que sou expert em fazer oportunidades: perceber como as coisas funcionam, estudar, preparar-me muito e correr atrás).

Viver é ler, ler mesmo muito.

Viver é ouvir: música, pessoas, natureza e sobretudo o silêncio.

Viver é apreciar e parar: para ver um pôr-do-sol, o vento nas plantas, as cores das nuvens, a chuva na janela…

Viver é acreditar que tudo é possível!

Viver é amar: amar muito, sem condições nem limitações.

Amar um amigo/a, amar a família, amar um amor.

Viver é trabalhar.

Viver é gostar do que fazemos profissionalmente e da funcionalidade que temos na sociedade.

Viver é gostar de trabalhar.

Viver é observar.

Viver é falar mas também é ouvir.

Viver é viajar!

E como eu adoro viajar!

Vivi em 3 continentes, trabalhei em 27 países diferentes e, no total, visitei 50 países.

Sim, viver é viajar e todas as emoções e conhecimentos que isso nos traz.

Sim, eu vivo muito, mesmo muito.

E gosto de saber viver.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
OSCAR WILDE


Houve alturas em que não soube viver

Há 3 anos, quando tive um grande colapso emocional (deveria ter sido internada pelos meus amigos, mas não fui. Acho que estava tão mal que os amigos se afastaram de mim também), olhei à minha volta para a minha vida e perguntei-me porque estava tão miserável.

Segui o caminho que a sociedade pediu: duas licenciaturas, dois mestrados, a meio de um doutoramento, um percurso em empresas de referência, criei a minha própria empresa, viajei pelo mundo mais do que qualquer cidadão comum.

Foi preciso chegar ao fundo do poço para compreender que estava a negligenciar-me.

Negligenciar as minhas próprias necessidades.

Andava a passear pela vida completamente dissociada.

Nunca fui realmente feliz mesmo tendo visitado lugares incríveis por todo o mundo, mesmo tendo trabalhado na ONU e em empresas fantásticas.

Também não estava triste.

Estava a existir.

O que eu estava a viver é o sistema social por conceção e por definição: alcançar, executar, produzir.

Ser uma máquina.

E tanta gente ainda me diz hoje:

“Anabela tu és uma máquina!”

Claro que quando se está deprimido, ansioso, ou completamente desprendido (com o sistema nervoso completamente desregulado) isto é apenas um distúrbio mental saudável.

Algo visto para simplesmente conseguir alcançar metas, algo que “faz parte” pelos que nos dizem, algo para que possa continuar a sua vida “produtiva”.

Estou tão grata por esse período mau (francamente horrível, terrível) da minha vida porque me despertou.

Um ano tão mau, mas tão mau, que acordei para a vida e para o que é viver.

Quem me dera poder dizer que esta viagem da vida é fácil.

Não é.

Quem me dera poder dizer que esta vida não é solitária.

É.

É muito, sim.

Especialmente nos inícios e nos recomeços.

Quem me dera poder dizer que toda a gente vai ter a vida facilitada.

Não vai.

O que eu posso dizer é:

A sociedade tem o “sucesso” catalogado e está completamente errado.

O verdadeiro sucesso é ter TUDO.

É ser capaz de dormir bem.

É conhecer as suas intenções e acompanhar sempre com ações.

É aprender que somos responsáveis pela nossa vida e de que somos mais do que capazes de criar uma vida que nos torna realizados.

É dar sem expectativas de receber (ou então não dar).

É deixar o ciclo exaustivo de procurar o amor de pessoas que nem sequer se amam a si mesmas.

Cada escolha é uma oportunidade de viver e de se curar do que lhe faz mal.


2019 foi o ano em que reescrevi a minha vida

Sou apologista da ciência, da arte, e por isso todos os dias me lembro que o guião da minha vida já foi escrito por Fernando Pessoa (o mesmo poeta que traduziu o poema de Edgar Allan Poe que me deu nome: Annabel Lee).

O guião da minha vida, todos os dias é este:

“Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra de árvores alheias”

É incrível como em 42 anos da minha vida, vivida de forma completa, cultivada, estudada, viajada, não me preenchia.

Hoje sim, hoje, a vida que tenho preenche-me: envolve muito do que fazia antes: viajar (Londres e Barcelona este ano, regressada de licença de maternidade e de volta ao trabalho e com o meu filho), trabalhar, mas acima de tudo parar e ter tempo para mim.

Não correr no mundo e não correr pelo mundo de forma desenfreada.

Quando me perguntam como superei 2019 e 2020 de uma experiência infernal dentro de uma pandemia, gosto de citar o nosso falecido Presidente da República, Jorge Sampaio, que muito admiro:

“Entre muitos defeitos que conheço em mim mesmo, um deles é ter muita capacidade de luta. Não parece, parece que sou um tipo frágil e que hesita, mas não gosto que me ponham a um canto. Saio de lá ao pontapé se for preciso.”

E posso de facto cair 1000 vezes que me levanto de forma elegante e bem-sucedida 1001.


Viver é recomeçar

Nem sempre soube pedir ajuda.

Nem sempre soube abrir-me e por vezes abri a minha vida a pessoas profundamente invejosas e aproveitadoras que se mascaram de boas pessoas para conseguir vantagens.

No entanto há muita verdade pessoal na maturidade que vamos construindo na nossa vida se quisermos e soubermos aprender com os erros.

E felizmente aprender é o que faço melhor na minha vida: nos bancos da academia, a ouvir pessoas que sabem muito mais do que eu, e a ouvir a vida e a experiência.

E por isso peço ajuda.

Tenho uma psicóloga maravilhosa que foi uma peça fundamental no momento mais vulnerável e sensível da minha vida e faz toda a diferença hoje sempre que tenho de tomar decisões.

E sim.

Procure ajuda profissional se tiver de recomeçar.

Recomeçar não é uma sentença de nada: é uma bênção de tudo.

Reescreva a sua história com as lições aprendidas e viva.

E comece por aqui, o melhor guião de recomeços que eu conheço:

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
MIGUEL TORGA, SÍSIFO


Viver também é trabalhar

Eu adoro trabalhar.

E você?

Se não gosta, possivelmente não está no trabalho certo ou então tem outra vocação que nunca seguiu.

Procure-me e resolvemos bem isso.

Durante a minha vida cometi tantos erros.

Começou logo pela minha formação académica: Direito.

Na melhor universidade do país (pelo menos para mim – e conheço outras em contextos de segunda licenciatura, pós-graduação e mestrado).

Penso que muito por ter entrado muito cedo, com 17 anos, na universidade.

Não sabemos o que queremos fazer para o resto da vida com esta idade…

E eu gostava de tantas coisas: jornalismo, psicologia, sociologia.

E tenho sido tudo isso de alguma forma.

Saída da academia para a ONU, volto à academia para trabalhar na Faculdade de Direito e por lá fiquei até descobrir que o direito não tem emoções e me colocar no mercado da gestão de recursos humanos e da formação.

Ajudar pessoas nas suas vocações é o que me traz satisfação.

Hoje, ajudar pessoas a serem felizes em tudo nas suas vidas!

E eu, sou muito feliz em tudo o que faço: sou policompetente, escrevo, publico livros, penso campanhas criativas para agências, sou psicóloga, sou coach, sou tudo o que me proponho a ser.

Como é que consigo?

Com tempo, com disponibilidade (sobretudo mental) e com muita vontade!


Viver é cuidar de si e ter bons hábitos

Viver, é sem dúvida nenhuma cuidar de si.

Cuidar dos outros também, mas como cuidar bem dos outros quando não cuidamos de nós?

Imagina o bem que poderia fazer se estivesse bem consigo, fisicamente e emocionalmente?

Pense muito nisto e comece sempre por si.

Tem algum ritual diário de bem-estar?

Eu tenho.

Partilho os meus.

Não sou fundamentalista de nada, mas faço questão de beber pelo menos 2 litros de água diariamente.

Faço questão de hidratar por dentro e por fora.

Faço questão de dizer bom dia a todas as pessoas que me fazem muito bem.

Faço questão de cozinhar o jantar todos os dias.

Faço questão de ler todos os dias: 15 minutos de manhã e o tempo que conseguir ao deitar.

Faço questão de ter os meus objetivos escritos.

Faço questão de ter a minha casa organizada e arrumada (tenho um bebé de 2 anos, não é simples. No entanto tento e vivo muito melhor assim).

Tento fazer ioga todos os dias.

Tento meditar sempre que posso: no banho, ou em intervalos do trabalho.

Faço questão de sorrir muito.

Faço questão de viver.


Viver é estudar

Viver é estudar: é saber mais, muito mais deste muito bonito em que vivemos.

Saber mais sobre nós e sobre como funcionamos por dentro e mesmo por fora, ou seja, sistemicamente: o que é que a sociedade faz connosco.

Viver é estudar arte e artes.

Viver é não ser superficial.

Viver é conhecer as coisas por dentro.

Viver é não se precipitar em opiniões e em achar que sabe, principalmente coisas complexas que exigem estudo e muita dedicação.

Viver é respeitar a ciência e a arte e os artistas.

Viver é observar isto tudo e perceber que é tudo tão maior do que nós e é tão bom: podemos todos os dias crescer muito.


Viver é ajudar

Viver é ajudar quem precisa de ajuda.

Viver é ter a porta aberta de casa a quem precisa.

Viver é ter cabeça e pensar que somos uma humanidade e que as fronteiras são jurídicas, económicas e políticas.

Viver é perceber que somos todos iguais em humanidade e dignidade e que o preconceito só serve cabeças pequenas que não aprendem nem querem aprender.

Viver é celebrar a diversidade de tantos mundos no mesmo mundo.

Viver é tão colorido que a nossa vida, tenhamos visão com o coração, será sempre alegre e emocionante.

Porque mais uma vez, viver é observar e estar nas coisas com emoção e com o coração.

Viver é entender que todos os problemas se resolvem e que devemos procurar ajuda especializada quando não são simples de resolver.

Viver é saber procurar ajuda.

Viver é entender, compreender, sentir, tentar, aprender, amar e melhorar.

O resto é perder.

“Até hoje fui sempre futuro.”
ALMADA NEGREIROS

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