O que é viver?
Viver é muito mais do que existir
No início do ano, uma pessoa que conheci e com quem saí algumas vezes, zangado comigo disse-me:
“Sai detrás desse ecrã e vai viver a vida!”
Dizia uma pessoa que, tirando os jogos de computador (sim, muito tempo atrás de um ecrã) e algumas obsessões, pouco mais fazia com a sua vida.
Ora bem, pensei eu muito sobre isto do que é “viver a vida” e dei-me por satisfeita porque hoje, prestes a fazer 45 anos, sinto que vivi como pouca gente que conheço (e conheço muita gente, afinal dei aulas a muita gente, sendo gestora de recursos humanos, entrevistei e entrevisto muita gente. Poucos amigos, muito conhecidos. Muitas pessoas interessantes e importantes. Muitas aprendizagens.).
“Temos tanta pressa de fazer algo, escrever, amontoar bens e deixar ouvir a nossa voz no silêncio enganador da eternidade que esquecemos a única coisa em relação à qual as outras não são mais do que meras partes: viver.”
ROBERT LOUIS STEVENSON
Mas afinal, o que é viver?
As palavras que aqui escrever, serão necessariamente minhas e por isso projeções daquilo que eu sou.
No entanto viver, no que observo em mim, no que observo nos outros, é tentar.
Viver é arriscar: tentar e arriscar.
Viver é agarrar as oportunidades que nos batem à porta ou então, fazer essas oportunidades (e sabem as pessoas que comigo privam que sou expert em fazer oportunidades: perceber como as coisas funcionam, estudar, preparar-me muito e correr atrás).
Viver é ler, ler mesmo muito.
Viver é ouvir: música, pessoas, natureza e sobretudo o silêncio.
Viver é apreciar e parar: para ver um pôr-do-sol, o vento nas plantas, as cores das nuvens, a chuva na janela…
Viver é acreditar que tudo é possível!
Viver é amar: amar muito, sem condições nem limitações.
Amar um amigo/a, amar a família, amar um amor.
Viver é trabalhar.
Viver é gostar do que fazemos profissionalmente e da funcionalidade que temos na sociedade.
Viver é gostar de trabalhar.
Viver é observar.
Viver é falar mas também é ouvir.
Viver é viajar!
E como eu adoro viajar!
Vivi em 3 continentes, trabalhei em 27 países diferentes e, no total, visitei 50 países.
Sim, viver é viajar e todas as emoções e conhecimentos que isso nos traz.
Sim, eu vivo muito, mesmo muito.
E gosto de saber viver.
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
OSCAR WILDE
Houve alturas em que não soube viver
Há 3 anos, quando tive um grande colapso emocional (deveria ter sido internada pelos meus amigos, mas não fui. Acho que estava tão mal que os amigos se afastaram de mim também), olhei à minha volta para a minha vida e perguntei-me porque estava tão miserável.
Segui o caminho que a sociedade pediu: duas licenciaturas, dois mestrados, a meio de um doutoramento, um percurso em empresas de referência, criei a minha própria empresa, viajei pelo mundo mais do que qualquer cidadão comum.
Foi preciso chegar ao fundo do poço para compreender que estava a negligenciar-me.
Negligenciar as minhas próprias necessidades.
Andava a passear pela vida completamente dissociada.
Nunca fui realmente feliz mesmo tendo visitado lugares incríveis por todo o mundo, mesmo tendo trabalhado na ONU e em empresas fantásticas.
Também não estava triste.
Estava a existir.
O que eu estava a viver é o sistema social por conceção e por definição: alcançar, executar, produzir.
Ser uma máquina.
E tanta gente ainda me diz hoje:
“Anabela tu és uma máquina!”
Claro que quando se está deprimido, ansioso, ou completamente desprendido (com o sistema nervoso completamente desregulado) isto é apenas um distúrbio mental saudável.
Algo visto para simplesmente conseguir alcançar metas, algo que “faz parte” pelos que nos dizem, algo para que possa continuar a sua vida “produtiva”.
Estou tão grata por esse período mau (francamente horrível, terrível) da minha vida porque me despertou.
Um ano tão mau, mas tão mau, que acordei para a vida e para o que é viver.
Quem me dera poder dizer que esta viagem da vida é fácil.
Não é.
Quem me dera poder dizer que esta vida não é solitária.
É.
É muito, sim.
Especialmente nos inícios e nos recomeços.
Quem me dera poder dizer que toda a gente vai ter a vida facilitada.
Não vai.
O que eu posso dizer é:
A sociedade tem o “sucesso” catalogado e está completamente errado.
O verdadeiro sucesso é ter TUDO.
É ser capaz de dormir bem.
É conhecer as suas intenções e acompanhar sempre com ações.
É aprender que somos responsáveis pela nossa vida e de que somos mais do que capazes de criar uma vida que nos torna realizados.
É dar sem expectativas de receber (ou então não dar).
É deixar o ciclo exaustivo de procurar o amor de pessoas que nem sequer se amam a si mesmas.
Cada escolha é uma oportunidade de viver e de se curar do que lhe faz mal.
2019 foi o ano em que reescrevi a minha vida
Sou apologista da ciência, da arte, e por isso todos os dias me lembro que o guião da minha vida já foi escrito por Fernando Pessoa (o mesmo poeta que traduziu o poema de Edgar Allan Poe que me deu nome: Annabel Lee).
O guião da minha vida, todos os dias é este:
“Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra de árvores alheias”
É incrível como em 42 anos da minha vida, vivida de forma completa, cultivada, estudada, viajada, não me preenchia.
Hoje sim, hoje, a vida que tenho preenche-me: envolve muito do que fazia antes: viajar (Londres e Barcelona este ano, regressada de licença de maternidade e de volta ao trabalho e com o meu filho), trabalhar, mas acima de tudo parar e ter tempo para mim.
Não correr no mundo e não correr pelo mundo de forma desenfreada.
Quando me perguntam como superei 2019 e 2020 de uma experiência infernal dentro de uma pandemia, gosto de citar o nosso falecido Presidente da República, Jorge Sampaio, que muito admiro:
“Entre muitos defeitos que conheço em mim mesmo, um deles é ter muita capacidade de luta. Não parece, parece que sou um tipo frágil e que hesita, mas não gosto que me ponham a um canto. Saio de lá ao pontapé se for preciso.”
E posso de facto cair 1000 vezes que me levanto de forma elegante e bem-sucedida 1001.
Viver é recomeçar
Nem sempre soube pedir ajuda.
Nem sempre soube abrir-me e por vezes abri a minha vida a pessoas profundamente invejosas e aproveitadoras que se mascaram de boas pessoas para conseguir vantagens.
No entanto há muita verdade pessoal na maturidade que vamos construindo na nossa vida se quisermos e soubermos aprender com os erros.
E felizmente aprender é o que faço melhor na minha vida: nos bancos da academia, a ouvir pessoas que sabem muito mais do que eu, e a ouvir a vida e a experiência.
E por isso peço ajuda.
Tenho uma psicóloga maravilhosa que foi uma peça fundamental no momento mais vulnerável e sensível da minha vida e faz toda a diferença hoje sempre que tenho de tomar decisões.
E sim.
Procure ajuda profissional se tiver de recomeçar.
Recomeçar não é uma sentença de nada: é uma bênção de tudo.
Reescreva a sua história com as lições aprendidas e viva.
E comece por aqui, o melhor guião de recomeços que eu conheço:
Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
MIGUEL TORGA, SÍSIFO
Viver também é trabalhar
Eu adoro trabalhar.
E você?
Se não gosta, possivelmente não está no trabalho certo ou então tem outra vocação que nunca seguiu.
Procure-me e resolvemos bem isso.
Durante a minha vida cometi tantos erros.
Começou logo pela minha formação académica: Direito.
Na melhor universidade do país (pelo menos para mim – e conheço outras em contextos de segunda licenciatura, pós-graduação e mestrado).
Penso que muito por ter entrado muito cedo, com 17 anos, na universidade.
Não sabemos o que queremos fazer para o resto da vida com esta idade…
E eu gostava de tantas coisas: jornalismo, psicologia, sociologia.
E tenho sido tudo isso de alguma forma.
Saída da academia para a ONU, volto à academia para trabalhar na Faculdade de Direito e por lá fiquei até descobrir que o direito não tem emoções e me colocar no mercado da gestão de recursos humanos e da formação.
Ajudar pessoas nas suas vocações é o que me traz satisfação.
Hoje, ajudar pessoas a serem felizes em tudo nas suas vidas!
E eu, sou muito feliz em tudo o que faço: sou policompetente, escrevo, publico livros, penso campanhas criativas para agências, sou psicóloga, sou coach, sou tudo o que me proponho a ser.
Como é que consigo?
Com tempo, com disponibilidade (sobretudo mental) e com muita vontade!
Viver é cuidar de si e ter bons hábitos
Viver, é sem dúvida nenhuma cuidar de si.
Cuidar dos outros também, mas como cuidar bem dos outros quando não cuidamos de nós?
Imagina o bem que poderia fazer se estivesse bem consigo, fisicamente e emocionalmente?
Pense muito nisto e comece sempre por si.
Tem algum ritual diário de bem-estar?
Eu tenho.
Partilho os meus.
Não sou fundamentalista de nada, mas faço questão de beber pelo menos 2 litros de água diariamente.
Faço questão de hidratar por dentro e por fora.
Faço questão de dizer bom dia a todas as pessoas que me fazem muito bem.
Faço questão de cozinhar o jantar todos os dias.
Faço questão de ler todos os dias: 15 minutos de manhã e o tempo que conseguir ao deitar.
Faço questão de ter os meus objetivos escritos.
Faço questão de ter a minha casa organizada e arrumada (tenho um bebé de 2 anos, não é simples. No entanto tento e vivo muito melhor assim).
Tento fazer ioga todos os dias.
Tento meditar sempre que posso: no banho, ou em intervalos do trabalho.
Faço questão de sorrir muito.
Faço questão de viver.
Viver é estudar
Viver é estudar: é saber mais, muito mais deste muito bonito em que vivemos.
Saber mais sobre nós e sobre como funcionamos por dentro e mesmo por fora, ou seja, sistemicamente: o que é que a sociedade faz connosco.
Viver é estudar arte e artes.
Viver é não ser superficial.
Viver é conhecer as coisas por dentro.
Viver é não se precipitar em opiniões e em achar que sabe, principalmente coisas complexas que exigem estudo e muita dedicação.
Viver é respeitar a ciência e a arte e os artistas.
Viver é observar isto tudo e perceber que é tudo tão maior do que nós e é tão bom: podemos todos os dias crescer muito.
Viver é ajudar
Viver é ajudar quem precisa de ajuda.
Viver é ter a porta aberta de casa a quem precisa.
Viver é ter cabeça e pensar que somos uma humanidade e que as fronteiras são jurídicas, económicas e políticas.
Viver é perceber que somos todos iguais em humanidade e dignidade e que o preconceito só serve cabeças pequenas que não aprendem nem querem aprender.
Viver é celebrar a diversidade de tantos mundos no mesmo mundo.
Viver é tão colorido que a nossa vida, tenhamos visão com o coração, será sempre alegre e emocionante.
Porque mais uma vez, viver é observar e estar nas coisas com emoção e com o coração.
Viver é entender que todos os problemas se resolvem e que devemos procurar ajuda especializada quando não são simples de resolver.
Viver é saber procurar ajuda.
Viver é entender, compreender, sentir, tentar, aprender, amar e melhorar.
O resto é perder.
“Até hoje fui sempre futuro.”
ALMADA NEGREIROS


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