Anabela Reis Moreira

two person performing on stage

Vivemos Num Mundo Onde Ser Não Chega — Sobre FOMO, Inveja e a Dor de Ficar Para Trás

“Porque é que aquela pessoa está ali com aquele emprego, se não vale nada?”

“Porque é que aquela pessoa está ali com aquele emprego, se não vale nada?” ouvi hoje…

Vivemos neste mundo hoje.

Um mundo em que o sucesso parece sempre acontecer noutro lugar, com outras pessoas, em timelines que não são a nossa.

Acordamos e abrimos o Instagram.

  • Um novo livro publicado.
  • Uma viagem de sonho.
  • Uma promoção.
  • Um prémio.
  • Um podcast viral.
  • Um corpo transformado.
  • Um casamento.
  • Um negócio de seis dígitos.

E do lado de cá, nós.

Com a loiça por lavar, um projeto a meio, uma dor antiga, contas para pagar e uma sensação surda de estar constantemente a FICAR PARA TRÁS.

Vivemos neste mundo onde a pergunta nunca é “como estás?”, mas “o que fizeste?”.

Onde se mede valor em produtividade.

Onde o silêncio é visto como fraqueza.

E onde a comparação virou desporto.


FOMO. Fear of Missing Out.

Medo de estar a perder alguma coisa.

De não estar no sítio certo, na hora certa, com as pessoas certas.

De não estar a viver o suficiente.

De não ser suficiente.

Mas esse medo, muitas vezes, não é medo.

É dor de exclusão.

É vergonha camuflada.

É raiva que não sabemos onde pôr.

É uma espécie de ferida aberta que se reacende cada vez que vemos alguém a conquistar algo que, secretamente, também queríamos.

E é aí que entra a pergunta que ninguém admite em voz alta:

“Porque é que aquela pessoa está ali, se — na minha medida — não vale nada?”

Cruel? Sim.

Humana? Também.


A régua que usamos para nos punir

A verdade é que aprendemos a medir os outros com a régua que usamos para nos punir.

Quando não nos sentimos suficientes, o sucesso dos outros transforma-se em ameaça.

Não porque nos desejamos mal uns aos outros — mas porque não sabemos como lidar com o mal-estar dentro de nós.

A inveja, nesse sentido, não é maldade.

É informação.

É o corpo a dizer:

“Queria isto.
Queria ser vista.
Queria sentir-me reconhecida.
Queria que o que faço importasse.”

Mas não nos ensinaram a ouvir esta dor com compaixão.

Ensinaram-nos a esconder.

A fingir.

A vestir máscaras de entusiasmo enquanto algo se rompe por dentro.

Vivemos neste mundo onde o brilho dos outros ilumina a nossa sombra.

E às vezes, em vez de aprendermos com essa luz, atacamo-la.

Porque é mais fácil desvalorizar do que olhar para dentro.

Mais fácil julgar do que sentir.

Mais fácil dizer “não vale nada” do que admitir “gostava que fosse eu”.


Há outro caminho

Mas há outro caminho.

Mais duro, sim.

Mas também mais curador.

Olhar a inveja nos olhos.

Sem vergonha.

Sem disfarces.

Sem filtros de autoajuda.

Perguntar-lhe o que veio mostrar.

O que ainda está por curar.

O que ainda está por conquistar.

Perguntar:

“De que é que me estou a afastar quando me comparo?”

“De que parte minha é que me desligo quando só olho para fora?”

“Se eu parasse de querer a vida dos outros, o que é que escolheria para a minha?”


De FOMO a FREEDOM

Vivemos neste mundo hoje.

Um mundo que nos ensina a correr, mas não a pausar.

A mostrar, mas não a sentir.

A vencer, mas não a existir.

Mas podemos criar outro dentro de nós.

Um mundo mais inteiro.

Mais lento.

Mais digno.

Um mundo onde FOMO se transforma em FREEDOM — liberdade de escolher o que faz sentido para mim, mesmo que não brilhe nas redes.

Um mundo onde a inveja se transforma em bússola — mostrando-me para onde ainda não tive coragem de ir.

Um mundo onde eu não preciso que o outro falhe para me sentir em paz.

Porque ser não é pouco.

E sentir também é caminho.


Não estás a ficar para trás

Se este texto te tocou — e se alguma vez sentiste que estavas a ficar para trás — deixa-me dizer-te uma coisa:

Não estás.

Estás a viver.

À tua maneira.

No teu tempo.

Com as tuas dores e as tuas escolhas.

E isso, por muito que o mundo grite o contrário, é suficiente.

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