“Estás obcecada pelo Chega.” Talvez o problema esteja naquilo que você vê.
“Estás obcecada pelo Chega.”
“Você só fala do Chega.”
Leio estas frases com uma frequência curiosa. Quase sempre aparecem por baixo de uma publicação minha sobre o Chega, o que é, por si só, um detalhe bastante interessante.
Há apenas um problema.
Não é verdade.
Falo do Chega. Falo de outros partidos e de outros protagonistas políticos. Escrevo sobre direitos humanos, liderança, inteligência artificial, gestão de pessoas, emprego, carreira, educação, liberdade, poder, discriminação e cultura organizacional.
Não é particularmente difícil confirmar isto. Está tudo publicado.
Ainda assim, há pessoas genuinamente convencidas de que eu “só falo do Chega”.
Interessa-me pouco discutir se falo muito ou pouco de um partido. Essa é uma avaliação subjetiva e cada pessoa fará a sua.
Interessa-me outra coisa.
Como é que alguém vê uma pequena parte da realidade e adquire uma convicção tão segura sobre o todo?
Porque este não é um problema sobre mim.
É um problema sobre a forma como vemos.
E, nas redes sociais, sobre quem decide aquilo que vemos.
NÓS NÃO VEMOS A REALIDADE TODA
Gostamos de imaginar que abrimos os olhos e recebemos o mundo.
Não recebemos.
O cérebro humano seleciona informação porque precisa de selecionar informação. A atenção é um recurso limitado. A quantidade de estímulos disponíveis é muito superior àquilo que conseguimos processar com a mesma profundidade.
A investigação sobre atenção descreveu durante décadas duas grandes forças capazes de influenciar aquilo a que prestamos atenção: os nossos objetivos — aquilo que estamos à procura — e a saliência dos próprios estímulos — aquilo que, pelas suas características, captura a atenção.
Nas últimas décadas, ganhou importância uma terceira dimensão: a chamada selection history, ou história de seleção.
A experiência anterior também deixa marcas naquilo que ganha prioridade atencional. Aquilo que procurámos, selecionámos, aprendemos a associar a recompensa, ameaça ou relevância pode influenciar seleções posteriores, mesmo quando já não corresponde exatamente ao nosso objetivo naquele momento. A literatura científica contemporânea considera esta história de seleção uma dimensão importante para compreender o controlo da atenção.
Isto é bastante mais sofisticado do que a versão popular da história do Sistema de Ativação Reticular.
O Sistema de Ativação Reticular existe e está envolvido na regulação da vigília, do estado de alerta e de processos relacionados com a atenção. Mas não existe no cérebro um pequeno segurança à porta chamado SAR que recebe instruções nossas de manhã e decide durante o resto do dia aquilo que nos deixa ver.
A atenção humana resulta de sistemas distribuídos e de mecanismos diferentes.
E talvez seja precisamente essa complexidade que devêssemos respeitar quando usamos “a neurociência diz” para explicar comportamentos humanos.
A ciência raramente é tão arrumada como os reels de 30 segundos.
O CARRO QUE PASSOU A ESTAR EM TODO O LADO
Há uma experiência banal que ajuda a perceber parte deste fenómeno.
Decidimos comprar determinado modelo de automóvel.
Pouco depois, começamos a vê-lo em todo o lado.
Há um no estacionamento.
Dois no caminho para casa.
Outro parado no semáforo.
De repente, parece que metade do país comprou exatamente o carro que escolhemos.
Os carros não apareceram durante a noite.
Mudou a importância daquele estímulo para nós.
Algo semelhante pode acontecer quando uma mulher engravida e começa a reparar muito mais em mulheres grávidas. Ou quando aprendemos uma palavra nova e passamos a encontrá-la em textos onde provavelmente já aparecia antes.
Isto deveria ensinar-nos alguma humildade epistemológica.
Aquilo em que reparo não é necessariamente aquilo que mais existe.
Aquilo que vejo muitas vezes não é necessariamente aquilo que mais acontece.
E aquilo que me aparece repetidamente não é necessariamente representativo do universo que estou a tentar avaliar.
Parece elementar.
Nas redes sociais, deixou de ser.
Porque ao funcionamento da nossa atenção acrescentámos uma máquina cuja função é precisamente selecionar.
O ALGORITMO TAMBÉM ESTÁ A OLHAR PARA SI
Quando abrimos uma rede social, não estamos diante de uma janela transparente para tudo o que foi publicado.
Estamos diante de uma seleção.
As plataformas utilizam sistemas de recomendação que recorrem a diferentes sinais para decidir que conteúdos têm maior probabilidade de interessar a cada utilizador.
O TikTok, por exemplo, explica publicamente que o seu sistema de recomendação considera sinais como os vídeos de que gostamos ou que partilhamos, as contas que seguimos, os comentários que fazemos e até indicadores como vermos determinado vídeo até ao fim. Esses sinais são ponderados para personalizar aquilo que nos é apresentado.
Pense agora no que acontece quando encontra um vídeo meu sobre o Chega.
Pára.
Vê.
Talvez veja até ao fim.
Vai aos comentários.
Comenta.
Alguém responde.
Regressa.
Aparece-lhe outro.
Também o vê.
Entretanto, publiquei sobre inteligência artificial, emprego, liderança e direitos humanos.
Passou.
Não parou.
O que é que aprendeu a plataforma?
E o que é que aprendeu a sua própria atenção?
Depois de algum tempo, aparecem-lhe vários conteúdos meus sobre o mesmo tema.
E nasce uma certeza:
“Esta mulher só fala do Chega.”
Não necessariamente.
Talvez aquilo que tenha descoberto seja, sobretudo, aquilo em que você pára.
AQUI COMEÇA UM PROBLEMA POLÍTICO MUITO MAIOR
Seria confortável culpar o algoritmo por tudo.
Também seria intelectualmente preguiçoso.
A investigação sobre os efeitos políticos dos algoritmos é mais complexa do que a narrativa simples segundo a qual “o algoritmo cria bolhas e radicaliza toda a gente”. Há evidência de que a ordenação algorítmica altera a exposição a conteúdos, mas estudos experimentais têm encontrado resultados mais matizados quando se tenta estabelecer efeitos causais sobre atitudes e polarização política.
Portanto, o problema não é uma máquina omnipotente que nos hipnotiza.
É a relação entre três coisas:
aquilo que capta a nossa atenção;
aquilo que a plataforma aprende sobre essa atenção;
e aquilo que nós concluímos a partir da amostra que nos foi apresentada.
É nesta terceira parte que recuperamos responsabilidade.
Porque não escolhemos tudo aquilo que nos chama a atenção.
Não controlamos integralmente aquilo que um sistema de recomendação decide colocar à nossa frente.
Mas podemos decidir se transformamos aquilo que vimos numa afirmação sobre aquilo que existe.
Essa diferença é enorme.
“EU VEJO SEMPRE” NÃO SIGNIFICA “ACONTECE SEMPRE”
Esta é uma das confusões mais perigosas da vida digital.
“Só vejo notícias sobre criminalidade.”
“Só vejo pessoas a dizer isto.”
“Toda a gente está revoltada.”
“Ninguém acredita nisso.”
“Esta pessoa só fala daquele partido.”
“Só aparecem casos destes.”
Parecem observações empíricas.
Muitas vezes são apenas descrições do nosso ambiente informacional.
E o nosso ambiente informacional não é uma amostra aleatória da sociedade.
Foi parcialmente construído pelas nossas escolhas, pelas nossas relações, pelas contas que seguimos, pelos conteúdos onde paramos e pelos sistemas que aprenderam a antecipar aquilo que provavelmente nos fará continuar.
Depois esquecemo-nos disso.
E chamamos “realidade” ao feed.
Há ainda outra razão para levar isto a sério.
A repetição produz efeitos cognitivos próprios. Uma extensa literatura sobre o chamado illusory truth effect mostra que a exposição repetida a uma afirmação pode aumentar a percepção da sua veracidade. Uma meta-análise recente, reunindo 182 estudos e mais de 31 mil participantes, encontrou um efeito pequeno, mas robusto, da repetição sobre julgamentos de verdade.
Isto não significa que tudo aquilo que vemos repetidamente passe automaticamente a ser acreditado.
Significa uma coisa suficientemente importante: familiaridade e verdade não são sinónimos, embora o nosso cérebro nem sempre as mantenha perfeitamente separadas.
Agora coloque isto dentro de um ambiente político altamente emocional, repetitivo e personalizado.
Percebe porque é que verificar deixou de ser uma delicadeza?
A EXPERIÊNCIA RADICAL DE FAZER SCROLL
Quando alguém me diz que “só falo do Chega”, poderia responder com uma longa defesa das minhas escolhas editoriais.
Não preciso.
Há uma experiência bastante mais eficiente.
Entre no meu perfil.
Faça scroll.
Leia.
Não confie na minha palavra. Verifique.
Vai encontrar vários protagonistas e temas políticos.
Vai encontrar direitos humanos.
Recursos humanos.
Inteligência artificial.
Liderança.
Emprego.
Carreira.
Educação.
Trabalho.
Pode chegar ao fim e concluir:
“Continuo a achar que fala demasiado do Chega.”
Perfeito.
Essa é uma opinião.
Mas “fala demasiado do Chega” e “só fala do Chega” são proposições diferentes.
A primeira depende daquilo que cada pessoa considera demasiado.
A segunda pode ser verificada.
E tenho particular interesse nesta diferença porque estamos a perder, no debate público, a fronteira entre impressão e facto.
“Eu sinto que” transforma-se em “é”.
“Eu vi” transforma-se em “acontece”.
“Apareceu-me” transforma-se em “toda a gente está a falar disto”.
“Vi três vídeos” transforma-se em “você só fala disto”.
A convicção cresce muito mais depressa do que a investigação.
NÃO SABER NÃO É O PROBLEMA
Há outra pergunta que recebo frequentemente:
“Onde é que você trabalha?”
Perguntar não tem absolutamente mal nenhum.
Não saber também não.
Curiosamente, essa informação está no meu perfil. Está no LinkedIn. E uma pesquisa pelo meu nome permite encontrar informação pública sobre o meu percurso profissional.
O problema, portanto, não está na pergunta.
Começa quando alguém não sabe onde trabalho, não procura saber onde trabalho e, mesmo assim, constrói uma acusação sobre onde trabalho, quem me paga, aquilo que faço ou os interesses que supostamente represento.
Nesse momento já não estamos perante desconhecimento.
Estamos perante um método.
Primeiro conclui-se.
Depois, se houver disponibilidade, talvez se procurem os factos.
É precisamente a ordem inversa daquela que uma sociedade informada deveria cultivar.
Não precisamos de saber tudo.
Precisamos de saber distinguir aquilo que sabemos daquilo que supomos.
Essa talvez seja uma das competências intelectuais mais subestimadas do nosso tempo.
O PROBLEMA NÃO É O CÉREBRO SELECIONAR
Não vou terminar a dizer-lhe que deve libertar-se dos seus enviesamentos.
Não consegue.
Eu também não.
Não existe um estado humano de observação absolutamente neutra no qual vemos tudo, ponderamos tudo com igual peso e chegamos imaculados à verdade.
Selecionamos.
Interpretamos.
Temos experiências anteriores.
Temos interesses.
Temos emoções.
Temos valores.
Temos histórias.
E agora temos algoritmos a aprender com uma parte considerável disso.
O problema começa quando ignoramos todos estes filtros e passamos a tratar a nossa percepção como prova suficiente da realidade.
É aí que entra a responsabilidade.
Ver mais uma fonte.
Abrir o perfil.
Ler o texto inteiro.
Procurar o documento.
Verificar a data.
Perguntar de onde veio o número.
Distinguir uma opinião de um facto.
Procurar informação capaz de contrariar aquilo em que já acreditamos.
E, talvez a mais difícil de todas:
admitir que a nossa primeira conclusão pode estar errada.
Isto não é apenas literacia digital.
É higiene democrática.
Porque uma democracia depende de cidadãos capazes de discutir realidades comuns apesar de terem opiniões diferentes sobre elas.
Podemos discordar sobre o Chega.
Podemos discordar sobre mim.
Podemos discordar sobre quase tudo.
Mas se aquilo que apareceu no nosso feed passar a valer como demonstração da realidade inteira, deixamos de discutir os mesmos factos.
Passamos apenas a confrontar percepções personalizadas.
O cérebro seleciona.
A tecnologia seleciona.
Nenhuma dessas duas coisas nos dispensa de pensar.
Da próxima vez que tiver a certeza de que alguém “só fala daquilo”, experimente interromper a certeza durante cinco minutos.
Procure.
Leia.
Compare.
Verifique.
Ter iniciativa para procurar informação antes de produzir uma conclusão é uma competência útil no trabalho, nas relações, na liderança e na vida.
Na política, é uma responsabilidade.
Porque, às vezes, não é a outra pessoa que está obcecada com um assunto.
Às vezes, foi apenas esse o assunto em que nós não conseguimos deixar de reparar.



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