Anabela Reis Moreira

História Mal Contada

Há uma pergunta que me fazem há muitos anos.

“Quando é que escreves um livro sobre a tua vida?”

Durante muito tempo achei que um dia o faria. Que me sentaria diante de uma folha em branco e organizaria as memórias por datas, lugares, cargos, países e acontecimentos. Como se uma vida pudesse ser alinhada numa cronologia limpa. Como se existisse uma sequência lógica capaz de explicar quem somos.

Hoje sei que não.

A minha história nunca foi linear.

E, na verdade, nenhuma história humana verdadeiramente o é.

Trabalhei em organizações internacionais. Sentei-me à mesa com líderes políticos, CEOs, empreendedores, diplomatas e refugiados. Vivi processos de transformação organizacional, acompanhei pessoas em momentos de enorme sucesso e outras em momentos de absoluta vulnerabilidade. Caminhei por mais de cinquenta países à procura de trabalho, de conhecimento, de sentido e, muitas vezes, de mim própria.

Mas nenhuma destas experiências existe isoladamente.

Sou feita das pessoas que conheci.

Cada conversa alterou uma convicção. Cada cultura desafiou um preconceito. Cada despedida deixou uma pergunta. Cada encontro mudou a forma como passei a olhar para o mundo.

Talvez por isso nunca tenha conseguido escrever uma autobiografia.

Porque ela nunca seria apenas sobre mim.


Vivemos obcecados com narrativas organizadas.

Gostamos de histórias que fazem sentido desde o princípio. Histórias onde tudo parece inevitável, coerente, quase perfeito.

Mas a vida raramente se apresenta assim.

A vida interrompe-se.

Contradiz-se.

Volta atrás.

Desmonta certezas.

Obriga-nos a começar de novo quando acreditávamos já ter encontrado o caminho.

E, sempre que contamos essa versão menos confortável da realidade, ouvimos quase inevitavelmente a mesma frase:

“Essa história está mal contada.”

Como se a verdade tivesse de obedecer às expectativas de quem a escuta.

Como se uma experiência só fosse legítima quando encaixa na gramática socialmente aceite.

Há histórias que incomodam porque recusam simplificações.

E são precisamente essas que mais precisam de ser contadas.


Foi daí que nasceu História Mal Contada.

Não como um podcast autobiográfico.

Nem como um espaço de confissões.

Muito menos como um exercício de exposição pessoal.

Nasceu como um lugar onde as histórias recuperam o direito de existir na sua complexidade.

Sem filtros.

Sem necessidade de encontrar culpados ou heróis.

Sem obrigação de terminar com uma lição inspiradora.

Porque algumas experiências não servem para motivar ninguém.

Servem apenas para compreender melhor a condição humana.


Vivemos numa época em que tudo parece precisar de caber num vídeo de um minuto, numa publicação de LinkedIn ou numa narrativa cuidadosamente editada para parecer inspiradora.

Mas há vidas que resistem a esse formato.

Há decisões que nunca terão uma resposta simples.

Há perdas que nunca se transformam em aprendizagem bonita.

Há lideranças feitas de dúvida.

Há carreiras construídas por acaso.

Há sucessos que nasceram do fracasso.

Há pessoas extraordinárias que nunca terão palco.

E há histórias que nunca foram mal contadas.

Foram apenas demasiado verdadeiras para serem confortáveis.


Este podcast nasce para lhes devolver espaço.

Para conversar sobre liderança sem slogans.

Sobre trabalho sem romantização.

Sobre relações humanas sem máscaras.

Sobre poder, identidade, pertença, migração, vulnerabilidade, carreira, coragem e memória.

Mas, acima de tudo, para falar sobre pessoas.

Porque nunca conheci uma transformação organizacional que não fosse, antes de tudo, uma transformação humana.


Talvez este seja, afinal, o livro que nunca consegui escrever.

Só que em vez de capítulos terá conversas.

Em vez de uma única voz, terá muitas.

Em vez de procurar uma versão definitiva da verdade, aceitará que existem várias.

Porque ninguém vive sozinho.

Ninguém constrói uma carreira sozinho.

Ninguém atravessa cinquenta países sem ser profundamente alterado pelas pessoas que encontra.

Eu, pelo menos, não atravessei.

Sou feita das pessoas que conheci.

E talvez seja essa a única autobiografia possível.


História Mal Contada é um podcast de Anabela Reis Moreira.

Um espaço para quem sabe que as melhores histórias raramente são lineares.

E que, por vezes, ser inteiro exige aceitar que a nossa história continuará, para muitos, a parecer mal contada.

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