Anabela Reis Moreira

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Quando o trabalho ocupa o lugar da identidade

Somos o nosso trabalho?

Há uma pergunta que nos acompanha desde a infância: “O que queres ser quando fores grande?”

Raramente nos perguntam quem queremos ser. Perguntam-nos o que queremos fazer. A diferença parece subtil, mas não é. Desde muito cedo aprendemos a associar identidade a profissão, como se o valor de uma pessoa pudesse ser resumido ao lugar que ocupa no mercado de trabalho.

Talvez seja por isso que, quando conhecemos alguém, uma das primeiras perguntas continue a ser: “O que fazes?” Quase nunca perguntamos o que o entusiasma, o que o preocupa, o que o faz crescer ou aquilo em que acredita. Perguntamos pela profissão, porque continuamos a assumir que ela diz o essencial sobre quem está à nossa frente.

O trabalho ocupa uma parte significativa da nossa vida e seria ingénuo negar a sua importância. É através dele que criamos, contribuímos, aprendemos e encontramos, muitas vezes, um profundo sentido de realização. Trabalhar pode ser uma das formas mais completas de expressão humana.

O problema começa quando deixamos de ter uma profissão para passarmos a ser apenas essa profissão.

Quando a identidade assenta exclusivamente no desempenho profissional, qualquer mudança na carreira deixa de ser apenas uma mudança de contexto. Passa a ser uma ameaça à própria perceção de quem somos. Uma promoção valida-nos. Um despedimento diminui-nos. A reforma desorienta-nos. O desemprego transforma-se numa experiência profundamente identitária antes mesmo de ser uma dificuldade económica.

É por isso que perder um emprego pode ser tão devastador. Não perdemos apenas um salário. Perdemos rotinas, relações, reconhecimento social e, muitas vezes, uma parte da narrativa que construímos sobre nós próprios.

Talvez o sofrimento associado ao desemprego resulte precisamente desta confusão entre aquilo que fazemos e aquilo que somos.

As organizações também alimentaram esta ideia. Durante décadas valorizámos as pessoas sobretudo pela sua produtividade. Medimos desempenho, resultados e objetivos, mas esquecemo-nos frequentemente de que nenhum colaborador deixa de ser pessoa quando entra na empresa. Continua a precisar de tempo, relações, descanso, curiosidade, espaço para errar e interesses que existam para lá do trabalho.

Por isso, falar hoje de equilíbrio entre vida pessoal e profissional talvez seja insuficiente. O verdadeiro desafio não consiste em dividir horas entre dois mundos. Consiste em impedir que um deles absorva completamente o outro.

Ter tempo para a família, cultivar amizades, praticar desporto, aprender uma língua, tocar um instrumento ou simplesmente não fazer nada de útil não são distrações da vida profissional. São partes essenciais de uma identidade que não depende exclusivamente da profissão.

Paradoxalmente, quanto mais completa é uma pessoa fora do trabalho, melhor tende a trabalhar. Não porque produza mais horas, mas porque decide com maior clareza, suporta melhor a pressão e preserva uma perspetiva que nenhuma carreira, por mais bem-sucedida que seja, consegue oferecer sozinha.

Vivemos, contudo, numa sociedade que continua a recompensar a disponibilidade permanente e a confundir ocupação com importância. As redes sociais amplificam esse fenómeno, transformando carreiras em montras e sucessos profissionais em critérios quase exclusivos de reconhecimento. O resultado é uma cultura onde muitas pessoas trabalham para construir uma identidade que, no fundo, receiam perder.

Talvez tenha chegado o momento de inverter a pergunta.

Em vez de perguntarmos apenas “O que faço?”, talvez devêssemos perguntar também “Quem continuo a ser quando o trabalho deixa de responder por mim?”

A resposta a essa pergunta dirá muito mais sobre a nossa identidade do que qualquer cargo inscrito num cartão de visita.

Porque o trabalho pode ocupar uma parte importante da nossa vida.

Mas nunca deveria ocupar o lugar da nossa identidade.

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