Anabela Reis Moreira

Coisas que são feias de dizer mas são verdade

Não entregue a sua carreira a quem nunca recrutou

Há demasiado negócio à volta do emprego

Por favor, não comprem serviços de carreira a quem não tem uma carreira.

Por favor, pensem duas vezes antes de entregarem o vosso futuro profissional a quem não trabalha, nem nunca trabalhou, em Recursos Humanos.

E verifiquem também se a pessoa é, de facto, qualificada na área. Não basta ser designer, criador de conteúdos ou especialista em marketing para perceber de recrutamento.

Há muita gente a fazer negócio no mundo do emprego sem nunca ter recrutado uma pessoa, desenvolvido talento ou gerido processos de seleção.

Quem nunca recrutou não sabe como se recruta

Como é que alguém que não trabalha diariamente em Recursos Humanos sabe o que são oito horas por dia, cinco dias por semana, a fazer triagens, entrevistas e desenvolvimento de pessoas?

Como é que consegue testar um CV num ATS que funciona diariamente, compará-lo com centenas de outros candidatos e perceber se aquele currículo tem ou não performance?

Como é que consegue perceber como um perfil é efetivamente visto por um headhunter através do LinkedIn Recruiter?

A resposta é simples.

Não consegue.

O mito do “CV bonito”

Ontem, o Hugo Gonçalves — que entretanto apagou os comentários ao meu post anterior — afirmou que os recrutadores valorizam CV bonitos.

Não.

Os recrutadores valorizam CV eficazes.

Quem trabalha diariamente a desenvolver pessoas e talento valoriza:

  • Organização da informação.
  • Boa descrição das responsabilidades, funções, competências e conquistas.
  • Formação contínua e investimento no desenvolvimento profissional.
  • Conhecimento de línguas.
  • Experiências de voluntariado e outros indicadores de envolvimento humano e social.

Tudo isto se vê num CV.

E, até ver, continua a ser a principal porta de entrada para uma entrevista.

Há exceções?

Há.

Mas felizmente a cunha tem vindo a perder espaço no mundo corporate. Uma referência pode abrir uma porta, mas não elimina, regra geral, a necessidade de passar por um processo de seleção. O CV continua a chegar às mãos de um recrutador ou de um headhunter.

Um bom CV não é um CV cheio de efeitos gráficos.

É um CV diferenciador.

É um CV claro.

É um CV onde a informação certa está organizada da forma certa.

Trabalho há dezoito anos em Recursos Humanos e desconheço outro caminho consistente para chegar a uma entrevista.

Inteligência Artificial: sim. Delegar a carreira: não.

Não alimentem mais mitos.

E, sim, utilizem Inteligência Artificial.

Claro que sim.

Mas nunca entreguem a vossa carreira à IA.

A experiência é vossa.

As conquistas são vossas.

A decisão final também deve ser vossa.

Editem.

Filtrarem.

Apaguem o que não faz sentido.

As ferramentas de IA ajudam muito, mas também inventam. E inventam mais do que muitos imaginam.

Saber utilizar Inteligência Artificial é uma competência.

Delegar-lhe totalmente a vossa história profissional é outra coisa.

A fotografia também comunica

E já agora.

Se a fotografia é má, está desfocada, tem outras pessoas, fundos irrelevantes, está pixelizada ou mal enquadrada, não coloquem fotografia.

Como escolher um bom profissional de gestão de carreira

Se precisarem de orientação — e isso é perfeitamente normal — procurem profissionais:

  • De Recursos Humanos.
  • Ativos no mercado.
  • De preferência integrados em empresas onde o recrutamento faça parte do trabalho diário.
  • Que utilizem ATS, LinkedIn Recruiter e outras ferramentas profissionais de recrutamento.

E peçam uma coisa muito simples.

Peçam para verem o vosso CV a ser testado.

Peçam que partilhem o ecrã.

São os mínimos.

Porque o barato, muitas vezes, sai caro.

Felizmente, há excelentes profissionais a fazer gestão de carreira em Portugal.

Procurem quem trabalha todos os dias do lado de quem recruta.

A diferença nota-se.

E boa sorte.

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