5 horas de comentários: quando criticar o CHEGA com factos que eles geraram traz insultos, sexismo e saudades da ditadura
Publiquei vídeos sobre liberdade religiosa, responsabilidade política e democracia. Falei do escrutínio que devemos exigir aos dirigentes do Chega, da discriminação contra muçulmanos e dos comentários de quem deseja o regresso de Salazar.
Nas horas seguintes, recebi respostas que merecem ser lidas com atenção. Algumas contestavam o que disse. Outras apoiavam-me. Muitas procuravam humilhar-me através do meu corpo, da minha aparência, da minha profissão ou de insultos sexuais. Houve também quem me mandasse para o Tarrafal e quem escrevesse, simplesmente: “Vai-te matar!”
O ficheiro que reuni contém 633 registos de comentários nas últimas 5 horas.
É importante esclarecer o que estes dados mostram: são comentários recebidos nas minhas redes, não uma amostra representativa dos eleitores portugueses. Os nomes reproduzidos são os apresentados pelas contas. Não confirmei a identidade civil dos autores.
Mas posso mostrar o que escreveram.
O CORPO E A SEXUALIDADE COMO ARMAS DE HUMILHAÇÃO
Quando uma mulher fala de política, há quem responda como se o seu corpo estivesse em discussão. Em vez de contestar uma afirmação, procura-se reduzir a pessoa a um insulto sexual ou à sua aparência.
Estas foram algumas das mensagens:
- Carlos Neves: “Vai mudar as coecas porca”
- Carlos Neves: “Olha paractou partido que so ladrões pedófilos que estu para dizer mal do chega porca”
- Manuel Vaz: “Coitada…arranja um namorado para te dar peso. Deixa de sair à noite.”
- Gustavo Polónia: “Oh badalhoca Vai maze limpar a tua casa que deves tar cheia de merda”
- Jose Fernandes: “Eu acho que deves ter pelos no cu e eles crescem na merda como tu será.”
- Acácio Cabaço: “Mas não falas os que estão agora minha otária alguns te vão á peida és uma grande merda és mais uma que vêm feitA esperta”
- Nuno Queiros: “Puta”
- Vitor Ferreira: “É tu vaca que és tu”
- Antonio Silva: “Bai labar essa boca porca aprubeita e laba o cu tanbem sua badalloca”
- Arnaldo Gonçalves: “Tambem estás á mama,vaca”
- Fernando Mendes: “Então sua cabra cabra do caralho então e este é o quê são santos Zé Tas uma filha da puta meu grande vaca”
- Jony Medina: “mas quem é esta badalhoca ?”
- David Silva: “e tu estás condenada de quê sua vaca”
- Joaquim Pereira: “Essa escoria estava melhor caladinha…essa deve gostar de ser montada por indianos e não só…devia levá-los para casa dela …ela é que é uma farsola de mdr”
Estas mensagens têm algo em comum: o conteúdo dos vídeos desaparece. O lugar da discussão passa a ser ocupado pelo corpo da mulher que falou.
A referência a um namorado, a ordem para limpar a casa e os insultos sexuais procuram recolocar-me num papel em que não sou uma interlocutora política. Sou alguém a quem se tenta dar uma ordem, atribuir uma disponibilidade sexual ou impor uma humilhação.
No comentário de Joaquim Pereira, essa humilhação mistura-se com uma referência à nacionalidade de outras pessoas. A defesa dos direitos dos imigrantes transforma-se numa insinuação sexual sobre quem os defende.
O comentário revela a escolha de quem o escreveu. Não revela nada sobre a minha vida.
QUANDO A APARÊNCIA SUBSTITUI A DISCUSSÃO
Outras mensagens procuraram atacar o meu rosto, o meu peso ou a imagem que apresento:
- Zé Ramos: “Tens cara de anormal”
- José Coelho: “Tem um sorriso de psicopata! Destila ódio pelos poros.”
- arnaldoferreira658: “E com razão rapariga! És bué feia!”
- Licinio Sousa: “Anabela uma coisa é verdade, és muito feia.”
- Andre Neto: “Mais uma feminista gorda 🤣🤣🤣”
- Jorge Sousa: “Carinha de feminista de merda”
- Valter Evora: “Devia ser crime é fazeres falsificação de identidade a ti própria 😂 és uma coisa em foto e em vídeo outra 😂 tinha vergonha fazer me passar por aquilo que não sou. Falaste bem “ex dirigentes” pelo menos foram expulsos. Já os pedófilos socialistas da Casa Pia não só foram protegidos, como continuram no partido. Nojo.”
A minha aparência não permite confirmar ou desmentir um facto. O meu peso não responde a uma questão sobre responsabilidade política. Um sorriso também não permite diagnosticar uma pessoa.
Contudo, estes ataques podem ter um efeito concreto: fazer com que uma mulher passe a pensar no que vai ouvir sobre o seu corpo antes de publicar uma opinião. Esse custo ajuda a afastar pessoas da discussão pública.
Quem participa nas redes não deve ter de aceitar a humilhação como preço obrigatório da sua voz.
AS ORDENS PARA ME CALAR
Há mensagens em que o objetivo aparece escrito de forma direta:
- Valdemar Teresa Lopes: “Tantas formações e só diz merda!!! Estavas tão bem calada!!”
- Avelina Maria: “Calate cabra força chega chega chega sempre chega”
- Joaquim Carvalho Carvalho: “O teu partido e santo calada es um demonio viva o chega e mais nada”
- António Jerónimo: “Cala-te só dizes merda fica lá com essa escumalha de gente RUA”
- Dario Garnacho: “Cala-te estupida do caralho”
- Manuel Rocha: “Calate vaca”
- Adelino Pedrosa: “Cala a voca”
- Cristina Pereira: “Cala te cala te. Fale de quem está a destruir Portugal e olhe k não é o chega”
- İsabel Jesus: “O mulher está calada …e vai trabalhar só na abrem a boca para dizer bujarda”
- Marco Simoes: “Anabela Moreira perdeste uma boa oportunidade de estares calada….tem vergonha”
- Paulo Maia: “Mais uma esquerdalha subsidiada, vós não tendes espelhos em casa? Durante 50 anos o foder o país, fecha a matraca,,,Carrega CHEEEEGA 💪💪💪🇵🇹🇵🇹🇵🇹🇨🇭”
Em algumas destas mensagens, o apoio ao Chega é explícito. Posso assinalá-lo porque está no próprio texto. Isso não me permite concluir que todos os eleitores do partido se comportam assim, nem que estas pessoas agem por instrução partidária.
Permite, porém, observar uma contradição: usam a liberdade de expressão para exigir o silêncio de quem critica o partido que apoiam.
A democracia admite a contestação de qualquer partido. Ter muitos votos não dá imunidade ao escrutínio. Uma pessoa pode defender o Chega, o PS, o PSD ou qualquer outra força política e continuar obrigada a responder pelos argumentos que apresenta.
SALAZAR, O TARRAFAL E A VIOLÊNCIA NAS PALAVRAS
Entre os comentários recebidos encontram-se estas mensagens:
- albertobarros204: “o Salazar faz muita falta”
- Anabela Simoes: “Viva o Sr. Antonio Salazar”
- Alex: “Salazar faz falta para acabar com a corrupção e acabar com a dívida pública feita pelos traidores nascidos de 40 a 90 , vivem há conta dos jovens 👌”
- Eunice Lucas: “Anabela para o Tarrafal de Salazar”
- Santos Albino: “Vai-te matar!”
- Luis Boaventura: “Um dia Hades ser comida pela imigração pessoas como tu a defender os ladrões fala do PS armando vara ainda preso e outros tantos que não tão presos porque são todos a defender olha o ladrão do ministro da a demistracao interna o que ele já roubou e muitos mais então tem vergonha dos comentários que fizeste comes da mesma gamela por causa de ti e outros ladrões e que o país está como está escumalhas de merda ganhavas mais se tivesses calada não sabes o que dizes”
Estas mensagens precisam de ser distinguidas. Uma expressão de apoio a Salazar, uma referência ao Tarrafal, uma ordem para alguém se matar e uma insinuação sexual intimidatória têm conteúdos diferentes. Não vou classificá-las todas como ameaças de morte.
Mas também não vou desvalorizar a violência que contêm.
Mandar uma pessoa para o “Tarrafal de Salazar” associa a sua opinião à ideia de repressão. Escrever “Vai-te matar!” dirige-lhe uma mensagem de extrema hostilidade. Imaginar violência sexual como consequência de defender imigrantes usa essa possibilidade para intimidar.
A eventual qualificação criminal de cada mensagem cabe às autoridades. A preservação do que foi escrito permite que essa avaliação seja feita com base em provas.
“QUANTO LHE PAGARAM?”: A SUSPEITA COMO RESPOSTA AUTOMÁTICA
Outro padrão recorrente consiste em afirmar ou insinuar que só posso criticar o Chega porque recebo dinheiro, tenho um “tacho” ou defendo interesses escondidos:
- Joana Oliveira: “Ais uma iluminada de inteligência 🤪🤪 já agora fala nos ladrões de todos os outros partidos não é ! Quanto recebestes pra falares assim vai dar banho ao cão 🐕🦺🐕🦺”
- Maria Reis: “E eu voto nos corruptos igual a ti pagaram te bém vai ver se chove”
- user5342302169540: “Escusavas de dar tanto nas vistas por quem es financiada”
- Augusto Costa: “Olha para os teus primeiro Ou tens medo que te acabe o tacho”
- Celso Cardoso: “Esses contasse com uma mão agora disme quantos são do ps e PSD e já agora quanto te pagaram”
- Paulo Abrantes: “Também queres tacho”
- Alfredo Coelho: “E do PS e PSD não falas,pois…não interessa, mais uma parasita com medo de perder o tacho. Força chega eles andam burrados!”
- Antonio Pinto Pinto: “UMA CHULA DO REGIME QUE NUNCA FEZ UM CARALHO E QUE AINDA NEM O CU LIMPOU”
Estas insinuações dispensam a apresentação de provas sobre mim. Basta inventar uma ligação financeira para tentar descredibilizar o que digo.
Ao mesmo tempo, aparece repetidamente a pergunta sobre os outros partidos. Perguntar pelos casos do PS ou do PSD pode ser legítimo. Exigir coerência também. Mas essa pergunta não resolve nem desmente os casos que estão a ser discutidos.
O escrutínio pode aplicar-se a todos sem obrigar cada publicação a conter toda a história política portuguesa.
OS INSULTOS À INTELIGÊNCIA E À SAÚDE MENTAL
Também recebi estas mensagens:
- Mario Sousa: “Deixa de ser ignorante 🤔🤬 🤡”
- Francisco Monteiro: “Ooo.. burra do caralho… Fala nos nomes dos outros partidos que estão á 50 anos no poder… Não falas porque terias que fazer um vídeo de muitas horas… E também não tens interesse em falar porque pertences a essa escunalha.. 🫣🫣🫣”
- Nuno Andre: “És especialista em ser burra todos os dias 😃😃”
- Manuel Oliveira: “PARVALHONA”
- Eugénia Sousa: “Atrasada mental”
- Fernando Ferreira: “És mesmo uma bela merda. Além disso és mentirosa.”
- Adriano Machado: “Burra”
- Alcina Rodrigues: “Quem é essa louca? Psiquiatria urgentemente”
- Joaquim Carvalho Carvalho: “Es especialita em merda”
- Vitormanuel Fernamdes: “Uma burra de óculos continua a ser uma burra .”
- Fernando Geraldes: “Desculpe mas adora ser burra.”
- Fernando Moreira: “Mais uma deficiente mental”
- Pedro Gomes: “Mais uma iluminada de merda”
- Alberto Ribeiro: “És toda artificial!!!!!”
Usar referências à deficiência ou à saúde mental como insulto também atinge outras pessoas. Transforma condições humanas em instrumentos de desprezo.
Quem considera que uma afirmação minha está errada pode identificar o erro, apresentar uma fonte e explicar a sua posição. Chamar-me “burra” não faz esse trabalho.
ESCOLARIDADE: O QUE OS DADOS PERMITEM DIZER
Há muitos erros de escrita nestes comentários. Mantive-os porque quis conservar as mensagens tal como aparecem no ficheiro, incluindo as palavras, a pontuação e as ofensas. O que denota que a escolaridade destas pessoas não deve sequer ser a escolaridade obrigatória. O que está correto, já que o direito à educação é uma conquista de esquerda.
Existem dados sobre escolaridade e voto. Na análise das europeias de 2024 publicada pelo projeto de sondagens ICS/Iscte, Pedro Magalhães identifica que a força eleitoral do CHEGA não tem ensino superior. É uma associação estatística naquele contexto eleitoral, não uma explicação dos insultos que recebi. Análise ICS/Iscte sobre as bases sociais do voto.
Seria injusto transformar a pouca escolaridade numa acusação moral. Há pessoas com poucos anos de escola que discutem com respeito e pessoas com formação superior que humilham os outros.
A responsabilidade está no comportamento: escolher insultar, sexualizar, intimidar ou mandar calar alguém. É esse comportamento que estas mensagens documentam.
TAMBÉM HOUVE CRÍTICAS QUE MERECEM SER OUVIDAS
O ficheiro não contém apenas ataques. Algumas pessoas questionaram a linguagem que usei nos meus próprios vídeos. Esse ponto merece uma resposta honesta.
Afonso Pimentel escreveu:
Anabela, tudo certo quanto à análise do comportamento daqueles cuja obra enquanto seres humanos não é suficientemente relevante para ter como estratégia, não a argumentação mas a demagogia e o juízo de valor, com se fossem encartados da inquisição. Porém, contudo, todavia e ainda assim … em que é que apelidar de burra e afins a autora de um comentário desse género lhe confere ascendente moral? Fiquei confuso! Talvez um pouco mais de reflexão antes de reação dê jeito, senão facilmente o tom bem disposto pode ser lido como hipocrisia trocista.
É uma crítica pertinente. Nos textos dos meus vídeos também usei expressões como “burra”, “pessoas burras” e generalizações sobre apoiantes do Chega. Posso reconhecer que essa linguagem enfraquece a discussão e corrigir a forma como respondo.
Esse reconhecimento não desculpa os insultos sexuais nem as mensagens intimidatórias. Significa que o respeito que exijo também orienta a minha própria intervenção.
Houve ainda mensagens de apoio com insultos dirigidos a terceiros. O facto de alguém estar do meu lado não torna essa linguagem aceitável. Para analisar este conjunto com seriedade, tenho de aplicar o mesmo critério.
MODERAR PARA PODER CONTINUAR A FALAR
Uso ferramentas de moderação, incluindo inteligência artificial, para reduzir a exposição a comentários abusivos. Mas as classificações automáticas exigem atenção.
No próprio ficheiro, algumas mensagens de apoio aparecem com a etiqueta “Toxic”. Isso mostra por que razão uma etiqueta automática não pode substituir a leitura do conteúdo, sobretudo quando se pretende documentar um caso ou encaminhá-lo para as autoridades.
Moderar exige distinguir discordância, crítica, insulto e intimidação. As ferramentas ajudam a gerir o volume; o julgamento sobre uma mensagem concreta precisa de contexto.
Preservar provas, ocultar abusos, bloquear contas e denunciar os casos graves permite continuar a participar sem entregar todo o tempo e toda a atenção a quem procura degradar a conversa.
O QUE ESTAS HORAS ME MOSTRARAM
Este conjunto não prova como são todos os eleitores do Chega. Também não prova uma ação coordenada ou uma ordem do partido.
Mostra, porém, como algumas pessoas reagem ao escrutínio: atacam o corpo de quem fala, inventam interesses escondidos, mandam calar e, em certos casos, juntam essas mensagens a declarações explícitas de apoio ao Chega ou a Salazar.
Os problemas do país merecem discussão. A corrupção merece investigação. A imigração, a segurança, a saúde e a liberdade religiosa merecem perguntas difíceis e respostas fundamentadas.
Continuarei a fazer essas perguntas. Também continuarei a rever a minha linguagem quando uma crítica tiver razão.
O que não aceito é que a participação pública de uma mulher dependa da sua disposição para suportar insultos sexuais, humilhação e intimidação.
Quem discorda de mim pode responder-me. Estes comentários ficam registados porque mostram o que acontece quando se escolhe atacar a pessoa em vez de discutir aquilo que ela disse.



Soares António
Isto já era de esperar, os descendentes de quem entregou amigos e também familiares à pide/dgs, a trouco de algumas benesses. estavam só à espera de aparecer uma ceita como chega criado pelos antigos donos do nosso País., e junto com a mesma receita do Salazar acesso à cultura só para a uma elite, para ser mais fácil de levar novamente aqueles que em cima referi a terem as atitudes que refere. Felizmente ainda existem pessoas como a senhora e muitos mais como havia antes do 25 de Abril que lutaram pela liberdade.