Anabela Reis Moreira

blue and yellow star flag

A nova diretiva europeia da transparência salarial: quando a justiça deixa de ser um ideal e passa a ser uma obrigação

A Diretiva da Transparência Salarial não vem mudar apenas salários. Vem mudar relações de poder.

Há legislação que altera procedimentos.

E há legislação que altera culturas.

A Diretiva (UE) 2023/970, relativa ao reforço da aplicação do princípio da igualdade de remuneração entre mulheres e homens através da transparência salarial e de mecanismos de fiscalização, pertence claramente ao segundo grupo.

À primeira vista, poderá parecer uma reforma técnica.

Novas obrigações de reporte.

Novos deveres de informação.

Novos mecanismos de fiscalização.

Mas seria um erro olhar para esta diretiva apenas através do Direito do Trabalho.

O que está verdadeiramente em causa é uma transformação profunda da forma como as organizações exercem poder, constroem confiança e legitimam as suas decisões.

Não estamos apenas perante uma alteração legislativa.

Estamos perante uma mudança de paradigma na governação das organizações.

A opacidade sempre foi uma forma de poder

Durante décadas, a remuneração foi tratada como um assunto estritamente privado.

Cada trabalhador conhecia o seu salário.

Poucos conheciam os critérios que justificavam diferenças remuneratórias.

Essa opacidade foi frequentemente apresentada como uma garantia de discrição.

Na prática, também dificultou o escrutínio.

Quando os critérios permanecem invisíveis, torna-se igualmente difícil identificar desigualdades, enviesamentos ou incoerências.

A transparência salarial altera precisamente este equilíbrio.

Ao exigir critérios objetivos para a definição da remuneração, progressão e promoção, a diretiva desloca o centro da discussão.

A pergunta deixa de ser:

“Quanto ganha cada pessoa?”

Passa a ser:

“Com base em que critérios justificamos esta diferença?”

É essa mudança que verdadeiramente desafia as organizações.

Transparência não significa uniformidade

Importa esclarecer um equívoco frequente.

A diretiva não exige que todos recebam exatamente o mesmo.

Nem impede políticas remuneratórias diferenciadas.

O que exige é que qualquer diferença possa ser explicada através de critérios objetivos, transparentes e neutros relativamente ao género.

Mérito.

Responsabilidade.

Competências.

Complexidade da função.

Experiência relevante.

Todos estes fatores podem justificar diferenças remuneratórias.

O que deixa de ser aceitável é que essas diferenças permaneçam sem explicação ou assentem em critérios inconsistentes.

A transparência não elimina a gestão.

Exige que ela seja justificável.

Uma mudança que começa antes de junho de 2026

Embora os Estados-Membros disponham de prazo para transpor a diretiva até junho de 2026, as organizações que esperarem pela publicação da legislação nacional estarão, muito provavelmente, a perder uma oportunidade estratégica.

Porque preparar esta mudança não significa apenas rever tabelas salariais.

Significa mapear sistemas remuneratórios.

Rever descrições funcionais.

Validar critérios de avaliação.

Identificar enviesamentos acumulados ao longo do tempo.

Formar lideranças para conversas que, até aqui, raramente foram necessárias.

Este trabalho não se improvisa.

Constrói-se.

O maior desafio não será jurídico

Do ponto de vista técnico, muitas organizações conseguirão adaptar regulamentos internos, rever procedimentos e cumprir novas obrigações de reporte.

O verdadeiro desafio será cultural.

A transparência expõe incoerências.

Questiona decisões antigas.

Obriga líderes a justificar opções que, durante anos, foram tomadas sem grande escrutínio.

É aqui que o Direito encontra a Psicologia Organizacional.

Porque nenhuma transformação legislativa produz mudança sustentável se a cultura permanecer inalterada.

Liderar na era da transparência

Existe uma diferença entre cumprir a lei e incorporar os seus princípios.

As organizações mais maduras não verão esta diretiva como uma ameaça.

Verão nela uma oportunidade para reforçar confiança, credibilidade e legitimidade interna.

A transparência salarial não elimina conflitos.

Mas reduz a arbitrariedade.

Não impede todas as desigualdades.

Mas dificulta a sua perpetuação.

Não substitui a liderança.

Exige uma liderança melhor.

Muito para além da remuneração

Talvez a maior contribuição desta diretiva seja recordar às organizações que a confiança não nasce da comunicação institucional.

Nasce da coerência entre aquilo que se afirma e aquilo que efetivamente se pratica.

Num contexto em que ética, sustentabilidade e governação ocupam um lugar cada vez mais central, a transparência salarial deixa de ser apenas uma obrigação legal.

Passa a constituir um indicador de maturidade organizacional.

Porque uma organização verdadeiramente ética não teme explicar as suas decisões.

Pelo contrário.

Compreende que a confiança cresce sempre que o poder aceita ser escrutinado.

E essa poderá ser a transformação mais importante trazida por esta diretiva.

Não a alteração das folhas salariais.

Mas a alteração da forma como as organizações entendem justiça, responsabilidade e liderança.


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