O que é ser ativista? E eu sou orgulhosamente ativista.

O que é ser ativista? E eu sou orgulhosamente ativista.

“Tu és uma ativista.”

Nos últimos tempos, entre os insultos que recebo quando escrevo sobre política, apareceu várias vezes esta palavra.

Ativista.

É particularmente frequente em comentários de pessoas que se identificam como apoiantes do Chega, sobretudo quando publico ou comento informação proveniente de decisões judiciais, documentos públicos ou notícias publicadas pela comunicação social.

A palavra aparece como acusação.

Como se tivessem descoberto alguma coisa embaraçosa sobre mim.

Tenho más notícias.

Sou orgulhosamente ativista.

E talvez valha a pena perceber quando é que participar na sociedade, defender causas e tentar mudar aquilo que consideramos injusto passou a ser apresentado como uma coisa moralmente suspeita.

O QUE É, AFINAL, SER ATIVISTA?

Retiremos durante alguns minutos toda a carga ideológica que foi sendo colocada sobre a palavra.

Um ativista é alguém que não se limita a identificar um problema.

Age sobre ele.

Informa.

Organiza.

Participa.

Educa.

Mobiliza.

Apresenta propostas.

Cria associações.

Faz voluntariado.

Manifesta-se.

Escreve.

Questiona instituições.

Exige respostas.

Defende uma causa.

Tenta alterar uma realidade que considera injusta.

Podemos concordar ou discordar da causa.

Podemos discutir os métodos.

Podemos contestar os argumentos.

Podemos demonstrar que os factos apresentados estão errados.

Tudo isso faz parte de uma sociedade livre.

Mas há uma coisa intelectualmente bastante pobre em transformar a própria participação numa acusação.

Porque participar na sociedade não é um desvio da democracia.

É uma das maneiras de a democracia existir.

EU FAÇO ATIVISMO HÁ MUITO TEMPO

Trabalhei nas Nações Unidas entre 1999 e 2002.

Há mais de vinte anos que a educação para os direitos humanos faz parte do meu trabalho.

Hoje continuo a entrar em escolas e a trabalhar direitos humanos com crianças e jovens dos 3 aos 18 anos.

Dou formação.

Faço sessões.

Desenvolvo oficinas.

Falo de dignidade humana, igualdade, liberdade, discriminação, participação, direitos das crianças, respeito pela diferença e responsabilidade.

Isto é ativismo.

Durante anos fiz voluntariado em países de África e da Ásia, trabalhando também com crianças e comunidades.

Isto é participação.

Lidero uma associação que presta apoio jurídico e psicológico a mães que criam os filhos praticamente sozinhas, incluindo situações em que os progenitores não assumem as responsabilidades que lhes cabem.

A mesma associação apoia cuidadores informais que vivem muitas vezes esmagados entre o dever de cuidar, a falta de respostas e um sistema extraordinariamente difícil de navegar.

Isto também é ativismo.

Não comecei a participar na sociedade quando comecei a escrever sobre política nas redes sociais.

Muito menos descobri os direitos humanos quando apareceu um partido político de que discordo.

Há uma linha bastante mais longa na minha vida.

E ela é muito simples:

quando considero que alguma coisa pode ser melhor, tenho dificuldade em ficar sentada à espera que outra pessoa trate do assunto.

ATIVISMO NÃO PERTENCE À ESQUERDA NEM À DIREITA

Há aqui outra confusão que vale a pena desmontar.

Ativismo não é uma ideologia.

Há ativistas de esquerda.

Há ativistas de direita.

Há ativistas conservadores.

Há ativistas progressistas.

Há ativismo ambiental, sindical, religioso, feminista, empresarial, comunitário, antirracista, pró-vida, pelos direitos LGBT, pelos direitos das pessoas com deficiência, pelos direitos dos animais, pela habitação, pela liberdade de expressão e por inúmeras outras causas.

Algumas dessas causas são incompatíveis entre si.

Algumas defendem mudanças que outras combatem.

É precisamente por isso que chamar “ativista” a alguém não resolve discussão nenhuma.

Diz apenas que aquela pessoa participa ativamente numa causa.

A pergunta relevante vem depois:

que causa?

Com que factos?

Com que métodos?

Com que respeito pelos direitos dos outros?

Com que consequências?

É aí que começa a discussão adulta.

O ATIVISMO TAMBÉM TEM DE SER RESPONSABILIZADO

Não romantizo o ativismo.

Uma causa não se torna justa porque alguém acredita profundamente nela.

Convicção não substitui factos.

Boas intenções não eliminam consequências.

E chamar “ativismo” a um comportamento não lhe concede imunidade moral.

Um ativista pode mentir.

Pode manipular.

Pode selecionar factos que lhe convêm.

Pode desumanizar quem discorda.

Pode transformar uma causa numa identidade tão rígida que deixa de conseguir reconhecer evidência contrária.

Pode ultrapassar limites legais.

Pode tornar-se exatamente aquilo que dizia combater.

Por isso, quem escolhe intervir publicamente tem responsabilidades acrescidas.

Eu também.

Se apresento um facto, devo conseguir sustentá-lo.

Se cito uma decisão judicial, devo respeitar aquilo que a decisão efetivamente diz.

Se utilizo uma notícia, devo distinguir notícia de opinião.

Se me engano, devo corrigir.

Se acuso alguém injustamente, devo responder por isso.

Se defendo direitos humanos, tenho de aceitar uma coisa particularmente incómoda: os direitos humanos também protegem pessoas de quem eu discordo profundamente.

É precisamente isso que lhes dá valor.

O PROBLEMA COMEÇA QUANDO “ATIVISTA” QUER DIZER “CALE-SE”

É aqui que a palavra começa a interessar-me.

Quando alguém responde a um argumento chamando “ativista” à pessoa que o apresentou, o que está realmente a refutar?

Nada.

Se eu publicar uma decisão judicial, pode discutir a minha interpretação da decisão.

Se citar um jornal, pode contestar a qualidade da fonte.

Se apresentar um dado, pode mostrar outro dado.

Se fizer uma afirmação falsa, deve corrigi-la.

Se tirar uma conclusão abusiva, deve demonstrá-lo.

Isso é debate.

Mas “és uma ativista” não responde ao argumento.

Tenta desqualificar quem o apresentou.

E existe uma diferença importante entre contradizer uma pessoa e tentar retirar-lhe legitimidade para participar.

Numa democracia, ninguém adquire o monopólio da política por pertencer a um partido.

Os cidadãos não votam e depois regressam obedientemente a casa durante quatro anos.

A participação democrática acontece também entre eleições.

Acontece em associações.

Em sindicatos.

Em movimentos cívicos.

Em petições.

Em manifestações.

Em assembleias.

Na comunicação social.

Nas escolas.

Nas universidades.

Nas organizações.

E, evidentemente, acontece também na Internet.

O Conselho da Europa reconhece precisamente a Internet como instrumento de participação democrática, incluindo a possibilidade de cidadãos participarem em debates de políticas públicas, campanhas, iniciativas cívicas e escrutínio da decisão política.

DIREITOS HUMANOS PRECISAM DE PESSOAS QUE OS DEFENDAM

Há uma coisa quase paradoxal em tratar “ativista de direitos humanos” como insulto.

Os direitos humanos não se realizaram espontaneamente.

Alguém teve de exigir que fossem reconhecidos.

Alguém teve de dizer que determinadas formas de discriminação eram intoleráveis quando ainda eram consideradas normais.

Alguém teve de organizar movimentos.

Alguém teve de escrever.

Alguém teve de protestar.

Alguém teve de incomodar.

Alguém teve de entrar em conflito com a normalidade do seu tempo.

Muitos dos direitos que hoje consideramos evidentes existem porque pessoas que viveram antes de nós recusaram aceitar como inevitável aquilo que encontraram.

A própria ONU reconhece o papel de indivíduos, grupos e organizações na promoção e proteção dos direitos humanos e o direito de participar pacificamente em atividades contra as suas violações.

O Conselho da Europa vai na mesma direção: liberdade de associação, liberdade de expressão e liberdade de reunião são componentes essenciais de uma sociedade democrática, e uma sociedade civil capaz de participar na vida pública é parte dessa infraestrutura democrática.

Portanto, não tenho qualquer interesse em fugir à palavra.

O MUNDO QUE QUERO PARA O MEU FILHO

Talvez esta seja a parte mais pessoal.

Tenho um filho.

E há uma pergunta que atravessa muito do que faço: que mundo quero deixar-lhe?

Naturalmente, não controlo esse mundo.

Mas controlo a parte que faço enquanto cá estou.

Posso preocupar-me com discriminação ou posso trabalhar sobre ela.

Posso lamentar que crianças não conheçam os seus direitos ou posso entrar numa escola e ensiná-los.

Posso dizer que mães e cuidadores estão abandonados pelo sistema ou posso ajudar a construir uma associação que lhes dê apoio.

Posso dizer que me preocupa determinada evolução política ou posso estudá-la, escrever sobre ela, confrontar argumentos e participar no debate público.

Isto não me torna moralmente superior a ninguém.

Torna-me responsável pelas escolhas que faço.

É uma diferença importante.

Não faço ativismo porque acredito que tenho sempre razão.

Faço-o porque acredito que a cidadania não termina no voto.

POR ISSO, SIM. SOU ATIVISTA.

Defendo a dignidade humana.

Defendo a igualdade.

Defendo a liberdade.

Defendo o Estado de Direito.

Defendo o direito das pessoas a discordarem de mim.

E defendo o meu direito de discordar delas.

Posso ser confrontada.

Posso ser criticada.

Posso ser corrigida.

Posso estar errada.

Aquilo que não aceito é a ideia de que participar ativamente na sociedade diminui a legitimidade daquilo que digo.

Se acha que estou errada, há uma solução bastante simples.

Mostre-me onde.

Traga os factos.

Conteste os dados.

Leia as decisões que cito.

Discuta as ideias.

É assim que se faz democracia.

Chamar-me “ativista” para evitar essa discussão não me ofende.

Poupa-me apenas o trabalho de explicar uma coisa que assumo há muitos anos.

Sou orgulhosamente ativista.

Porque há problemas que merecem a nossa preocupação.

E há outros que exigem a nossa participação.

Anabela Reis Moreira
Anabela Reis Moreira

Especialista em IA e Liderança e educadora para os direitos humanos. Escrevo sobre o futuro sem esquecer o que nos torna humanos.

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