27 anos de buracos e coisas mal feitas: auto-reflexão
Sobre os erros que encontrei, os que causei e aqueles que ainda não consigo ver.
Na quinta-feira, na SONAE, sentei-me numa cadeira cheia de buracos.
Era uma daquelas cadeiras de estrutura metálica, feita de linhas curvas e espaços vazios. O sol atravessava-a e projetava no chão um desenho de sombras que reproduzia, com alguma distorção, a sua forma. Dependendo do ângulo, a cadeira parecia ter mais espaço vazio do que matéria.
Sentei-me. Era sólida.
Fiquei algum tempo a olhar para ela. Talvez porque me aproximo dos 27 anos de experiência profissional, que assinalarei no Dia de Ação de Graças. Talvez porque, com os anos, começamos a reparar em coisas que antes nos passavam completamente ao lado. Ou porque uma cadeira cheia de buracos é uma imagem bastante adequada para pensar numa vida profissional.
Sobretudo quando fazemos parte dos buracos que encontramos.
OS BURACOS QUE ENCONTREI
Ao longo de 27 anos, encontrei muitos.
Alguns eram evidentes. Processos mal desenhados, decisões tomadas sem informação suficiente, problemas que toda a gente conhecia e ninguém resolvia. Coisas que funcionavam por hábito, apesar de já ninguém conseguir explicar por que razão continuavam a ser feitas daquela maneira.
Outros estavam muito bem escondidos.
Apareciam quando uma decisão aparentemente simples desencadeava consequências inesperadas. Quando uma pessoa saía e percebíamos que uma parte importante do funcionamento de uma equipa dependia exclusivamente dela. Quando descobríamos que aquilo que parecia consenso era apenas o resultado de ninguém se sentir suficientemente à vontade para discordar.
Havia também os buracos que se tinham tornado tão familiares que já faziam parte da paisagem.
E esses sempre me pareceram particularmente difíceis de reconhecer.
Quando convivemos durante muito tempo com uma falha, desenvolvemos formas de trabalhar à sua volta. Ajustamos comportamentos, criamos procedimentos informais, antecipamos problemas. Com o tempo, deixamos de reparar no esforço necessário para manter tudo a funcionar.
A adaptação pode tornar-se tão eficiente que acabamos por perder a consciência daquilo a que nos adaptámos.
E, quando finalmente alguma coisa cede, descobrimos que o buraco estava ali há anos.
OS BURACOS QUE CAUSEI
Esta parte exige outra disposição.
É relativamente fácil identificar o que os outros fizeram mal. Temos distância, informação posterior e uma tendência muito humana para avaliar decisões antigas com a lucidez que só adquirimos depois de conhecer as consequências.
Com os nossos próprios erros, a análise torna-se menos confortável.
Também abri buracos.
Tomei decisões precipitadas. Confiei em interpretações que se revelaram incompletas. Insisti em caminhos que já apresentavam sinais de que alguma coisa estava errada. Houve conversas que devia ter tido mais cedo, perguntas que ficaram por fazer e momentos em que a minha convicção foi maior do que a minha compreensão.
Em algumas situações, percebi rapidamente o que tinha acontecido. Noutras, precisei de meses ou anos.
E continuo a admitir a possibilidade de existirem consequências das minhas decisões que nunca cheguei a conhecer.
Há uma dimensão da responsabilidade que raramente discutimos: a impossibilidade de termos acesso a todas as consequências daquilo que fazemos.
Uma decisão pode parecer acertada a quem a tomou e ter criado dificuldades que nunca lhe foram comunicadas. Uma intervenção feita com a melhor intenção pode ter alterado o equilíbrio de uma equipa. Uma palavra dita num momento de impaciência pode permanecer na memória de alguém muito depois de termos esquecido a conversa.
O facto de não conhecermos essas consequências não significa que não existam.
E reconhecer um erro também não resolve automaticamente aquilo que aconteceu.
Alguns buracos conseguem reparar-se. Outros exigem tempo, persistência e a participação de pessoas que podem já não estar disponíveis para essa reparação. Há danos que deixam marcas, mesmo depois de termos feito tudo o que estava ao nosso alcance para os corrigir.
A experiência obriga-nos, em determinados momentos, a conviver com essa realidade.
O PERIGO DE SABER DEMASIADO DEPRESSA
Durante muitos anos, associei a experiência à capacidade de reconhecer situações e encontrar respostas com maior rapidez.
Continuo a reconhecer valor nessa capacidade. Seria absurdo ignorar tudo o que aprendemos com a repetição, com os erros e com as consequências que observámos.
Mas há uma armadilha.
Quanto mais familiar nos parece uma situação, maior é a probabilidade de recorrermos a uma explicação que já conhecemos. Identificamos padrões, antecipamos comportamentos e completamos mentalmente a informação que falta.
Muitas vezes, acertamos.
O problema começa quando deixamos de verificar.
A experiência pode dar-nos uma confiança que ultrapassa a informação de que realmente dispomos. Passamos a ouvir menos porque acreditamos já ter compreendido. Fazemos menos perguntas porque reconhecemos o cenário. E, sem nos apercebermos, começamos a confundir familiaridade com conhecimento.
Já me aconteceu.
Hoje, desconfio especialmente daqueles momentos em que tudo me parece demasiado evidente.
Quando encontro uma explicação muito depressa, procuro perceber o que ficou de fora. Quando todos concordam, pergunto-me se houve espaço para discordar. Quando uma decisão parece simples, tento identificar quem poderá conhecer uma parte da situação que ainda não chegou até mim.
Nem sempre consigo.
Continuo a ter pressa, convicções, preferências e pontos cegos. Continuo a interpretar a realidade a partir daquilo que sei, daquilo que vivi e também daquilo que me custa admitir.
A diferença é que hoje tenho maior consciência da possibilidade de estar enganada.
QUAL É O BURACO QUE AINDA NÃO ESTOU A VER?
Esta tornou-se uma das perguntas que mais me acompanha quando tenho alguma coisa importante em mãos.
Qual é o buraco que ainda não estou a ver?
Há uma segunda pergunta que, por vezes, me incomoda ainda mais:
Qual é o buraco que posso estar a causar sem me aperceber?
São perguntas difíceis porque não oferecem a satisfação imediata de uma resposta. Obrigam-me a aceitar que posso estar a trabalhar com informação insuficiente, a ignorar uma perspetiva relevante ou a subestimar as consequências de uma escolha.
Também me obrigam a escutar de outra maneira.
Por vezes, a pessoa que identifica um problema não consegue explicá-lo com a clareza que esperamos. Pode ter apenas uma sensação de desconforto, uma observação isolada ou uma experiência diferente da nossa.
É tentador desvalorizar aquilo que ainda não vem acompanhado de uma explicação convincente.
Mas já encontrei problemas importantes que começaram precisamente assim: alguém reparou numa coisa pequena que não encaixava na versão dos acontecimentos que todos aceitávamos.
Nem todas as dúvidas revelam problemas. Nem todas as objeções têm fundamento. E procurar incessantemente aquilo que pode estar errado também pode impedir-nos de decidir.
O desafio está em conseguir avançar sem transformar a nossa convicção numa barreira à informação que ainda não temos.
Há decisões que precisam de ser tomadas antes de termos todas as respostas. A vida profissional está cheia delas.
A responsabilidade continua depois da decisão. Está na atenção aos sinais que surgem, na disponibilidade para rever o que fizemos e na capacidade de corrigir o rumo quando descobrimos que deixámos alguma coisa importante de fora.
VOLTAR À CADEIRA
Olhei novamente para a fotografia.
Os buracos daquela cadeira tinham uma característica curiosa: estavam todos à vista. Faziam parte do desenho e permitiam que a luz passasse através da estrutura.
As sombras, porém, contavam uma história diferente.
Projetadas no chão, as linhas mudavam de dimensão e de posição. Algumas sobrepunham-se. Outras desapareciam na sombra de elementos maiores. A imagem dependia da direção da luz e do lugar de onde era observada.
Pensei na quantidade de vezes em que julgamos conhecer uma situação porque a estamos a observar de um determinado lugar.
Mudamos de posição e aparecem pormenores que antes estavam escondidos.
A cadeira continuava sólida. Mas também seria ingénuo concluir que todas as estruturas cheias de buracos são capazes de suportar peso. Algumas resistem precisamente porque os espaços foram pensados e as ligações são suficientemente fortes. Outras mantêm-se de pé até ao dia em que alguém se senta.
A diferença pode passar despercebida durante muito tempo.
E talvez seja essa a parte mais interessante da fotografia: a aparência, por si só, diz-nos muito pouco sobre aquilo que uma estrutura consegue suportar.
27 ANOS DEPOIS
Quando penso nestes 27 anos, lembro-me de muitas coisas que correram bem. De decisões difíceis que se revelaram acertadas, de pessoas com quem tive o privilégio de trabalhar e de problemas que conseguimos resolver.
Mas lembro-me também de coisas mal feitas.
Algumas encontrei-as. Outras tiveram a minha participação direta. E há aquelas que continuo a tentar compreender ou compor.
Não sinto necessidade de agradecer a todos os erros. Alguns tiveram custos demasiado elevados para serem transformados, retrospectivamente, em histórias bonitas de aprendizagem.
Há coisas que deviam ter sido feitas de outra maneira. Há consequências que merecem ser reconhecidas sem lhes procurar uma utilidade posterior.
Aprender com um erro pode ajudar-nos a evitar a sua repetição. Reparar o que for possível continua a ser uma responsabilidade independente da aprendizagem.
Aos 27 anos de experiência profissional, tenho mais conhecimento, mais referências e uma memória considerável de coisas que já vi correr mal.
Tenho também mais perguntas.
E, curiosamente, sinto-me hoje menos inclinada a considerar uma questão encerrada apenas porque encontrei uma resposta convincente.
Talvez seja uma das mudanças mais importantes que reconheço em mim.
Na quinta-feira, sentei-me numa cadeira cheia de buracos e senti-me segura.
Mas, se há alguma coisa que estes 27 anos me ensinaram, foi a ter cuidado com a facilidade com que confundimos a sensação de segurança com a solidez daquilo que temos pela frente.
Continuarei a encontrar buracos. Alguns conseguirei antecipar, outros só reconhecerei depois de ter tropeçado neles. E é provável que ainda venha a causar alguns, apesar de todo o cuidado.
O que posso fazer é continuar a observar, perguntar, escutar e corrigir.
Sobretudo quando estou muito convencida de que já vi tudo.
Porque, nesse momento, a pergunta torna-se ainda mais necessária:
Qual é o buraco que ainda não estou a ver?



Deixe um comentário